Domingo, 21 de Junho de 2009

FICHA DE ACEITAÇÃO


Entregar ou não entregar a ficha de auto-avaliação é a questão que assalta, nos dias que correm, a consciência da esmagadora maioria dos docentes deste país. Os argumentos que sustentam ambas as atitudes — e respectivas consequências — são conhecidos e já foram devida e profusamente analisados. Por isso, vou abster-me de maçar as pessoas com ideias pleonásticas e limitar-me a divulgar os pilares que sustentam a minha recusa.

Este sistema de avaliação, que serve muitos interesses, mas não aqueles que proclama, é um corpo estranho no sistema de ensino: subalterniza e instrumentaliza os professores; divide e desprestigia a classe docente; tem implicações muito negativas em toda a dinâmica escolar, pela subversão de todas as relações interpessoais e pela cultura do aparato, que vem como oferta; empobrece a essência do acto educativo e enriquece a aparência da escola, que, subitamente, passa a ostentar um sucesso que não tem. Já nem sequer comento a complexidade de todo o processo, a problemática das aulas assistidas, as competências de quem avalia, a impertinência de alguns parâmetros, como o dos resultados dos alunos… Todos nós sabemos que este sistema está muito mal vestido, dos pés à cabeça: não tem ponta por onde se lhe pegue. E quando assim é…

Para mim, não entregar a ficha de auto-avaliação é, em primeiro lugar, uma questão de princípio: como professor, recuso assinar por baixo, subscrever uma armadilha destas, uma iniquidade desta envergadura, um atestado de ignorância e de subserviência passado a toda uma classe profissional. Em segundo lugar, é uma questão de coerência com tudo o que tenho dito aos meus colegas, através do Dardomeu e do ProfAvaliação: nesse sentido, o meu carácter não me deixa alternativa. Em terceiro lugar, porque na 5 de Outubro há alguém que desespera, à espera do seu prémio de consolação, do seu golo de honra: aproveitar uma vez mais as estatísticas para dizer que os professores acabaram por aceitar. A recusa tem consequências? Claro que tem, e o aborto de todo o sistema é uma delas. Boas ou más, estou pronto… e até desejo provar esse licor!

Este sistema, tão orwelliano, não precisa do nosso acto de contrição, pois o Big Brother está sempre a ver-nos.
Luís Costa


Quadro de Miguel Coelho

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