Sábado, 7 de Novembro de 2009

CRIME


Enquanto algures, noutra atalaia ― a pretexto de uma funcionalidade serôdia ― se fazem arrumações e “limpezas” que acabam por reduzir o volume às vozes desenganadas relativamente a Isabel Alçada; enquanto algures, noutra atalaia, se gere muito mal o equilíbrio entre uma amistosa mesura e os interesses profundos de toda uma classe profissional, o Dardomeu ― eterna Fénix ― continua a dar mostras da sua “covardia”, olhando para a realidade apenas com o seu olhar descomprometido. Pode ser ignorante e ter miopia, mas é genuíno e imparcial.

Contrariamente a muita coisa que já li, não consigo ver na renovação dos edifícios das escolas secundárias uma medida positiva a abrilhantar o mandato de Lurdes Rodrigues ― que Deus a tenha em eterno descanso e paz! Na minha perspectiva de “campónio” transmontano e rude, tomo a liberdade de considerar um crime tudo aquilo que vejo crescer no interior dos perímetros escolares. Em primeiro lugar, essas edificações a granel tresandam a escolas abandonadas no interior do país, tresandam a desertificação, tresandam a injustiça na distribuição da riqueza de Portugal. Em segundo lugar, esses galinheiros de cimento, que vejo crescer como cogumelos, estão a devorar os espaços exteriores das escolas, inundando-os de sombrias e claustrofóbicas figuras geométricas de betão: as escolas que conheço estão a transformar-se em guetos, onde, das janelas das salas de aula se vê apenas outras salas de aula. Finalmente, nas escolas mais antigas que conheço ― como a Sá de Miranda, por exemplo, que é um edifício belo e imponente ― os anexos que fizeram são autênticos pontapés arquitectónicos, não só no rosto do edifício principal como também nas ancas das habitações vizinhas.

Temo que as consequências destes atentados ― motivados, uma vez mais, pela pressa de fazer, deixando o pensamento para depois ― sejam irreversíveis. Temo que tudo isto tenha sido decidido para encatrafiar, à pressa e à força, a avalanche que vem aí, a reboque do alargamento do ensino obrigatório. Lamento que tudo isto não se fique pelo vómito estético e arquitectónico, mas que também alague o terreno pedagógico.


Luís Costa

2 comentários:

Clara Amorim disse...

Luís,

Para mim, este texto é mais uma prova cabal da inteligência, coragem e frontalidade que têm caracterizado o longo percurso do Dardomeu, na sua imparável luta contra todas as atrocidades que têm sido cometidas no plano da Educação em Potugal.
Os olhos do Dardomeu estão de muita boa saúde e recomendam-se!!!

Helena Vilar disse...

É a sensação que tenho ao ver a evolução das obras na minha escola. Ficaremos presos, dentro de um quadrado com quatro edifícios. Do edifício velho, onde entrei, para estudar, aos dez anos de idade, e onde trabalho há 25 anos, já nem o céu se vê!