Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

AOS MESTRES DO MEU PAÍS


Estou prestes a encerrar o Dardomeu, atalaia onde estive dois anos, contados em dias, em incessante vigília, atento às palpitações do vosso peito. Foi nele, aliás, que agitei as ondas e naveguei como “emonauta”, libertino, picaresco e subversor. Mas também foi dessa ondulação que, insaciavelmente, me alimentei. E fi-lo por amor, só por amor!

Hoje, porém, após alguns vertiginosos rodopios do carrossel do tempo, da vidraça do meu farol já não diviso o vosso alto-mar irrequieto de outrora. No horizonte crepuscular, estende-se um imenso oceano pacífico onde se miram as cores arroxeadas de um estranho céu sonolento. Sei que, sob essas águas cálidas e quietas, ainda moram magníficos bancos de coral, onde pululam fetais esperanças; sei que, no ventre dessa letargia feita de cansaço, mora também o gérmen de um novo sopro de vida, que virá desassossegar a superfície. No entanto, enquanto essa gestação fermenta, é mais sensato recolher ao nicho e aninhar-me, recobrando ventos que apressem a madrugada.

Estarei na vossa saudade, como incansável andarilho, devolvendo ao céu, uma a uma, todas as estrelas cadentes. E será na vossa saudade que se inflamarão, de novo, as acendalhas da crença. Então serei Fénix, Neptuno e marinheiro quinhentista. Serei, de novo, “emonauta”, libertino, picaresco e subversor. E irei convosco resgatar do amanhã o nosso sonho, esse graal que, religiosamente, demando.

Luís Costa

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