
Fico assustado, quando vejo certos ministros — que percebem tanto de ensino como eu de lagares de azeite — dizerem que a grande prioridade é isto ou aquilo, pois fico ciente de que o objecto da sua paixão vai ser esfrangalhado. São como elefantes apaixonados por lojas de cristais.
No final desta legislatura — se chegar ao fim, para mal dos nossos pecados — os estragos serão incontáveis e, muitos deles, completamente irreparáveis. Para além daqueles que nos levaram três vezes a Lisboa, surgirão outros, muitos outros, resultantes de tanto tijolo que se anda por aí a gastar em sprint e a granel, na construção de autênticas centrais nucleares: são os galinheiros atómicos que se estão a erguer nas escolas secundárias e os ditos “centros escolares”, que vampirizam as suas redondezas, secam raízes, desertificam as terras. E tudo se faz com a mesma desculpa de sempre: para haver melhores condições, melhor socialização, melhor aprendizagem... Tudo melhor, cada vez melhor, sempre melhor! Para quem?
Os nossos governantes, contra os mais básicos fundamentos democráticos, medem todo o país pela mesma rasa: têm uma cultura essencialmente urbana e demasiado focalizada no litoral; olham para o interior com desprezo e, quando tomam decisões, não equacionam qualquer espécie de discriminação positiva. O povo do interior é tratado como gentalha, portugueses de segunda, massa humana que deve fechar a porta de casa e fazer-se à vida, num local qualquer, desde que seja à beira-mar, que é mais barato. Para estes governantes míopes, fechar maternidades, centros de saúde, esquadras de polícia... é apenas uma questão de rácio, mais nada. Para estes governantes vesgos, abrir um centro escolar numa vila do interior, rodeada de montanhas pintalgadas de aldeias, que ficam isoladas quando neva, é o mesmo que abrir um centro escolar em Braga ou Coimbra. Para estes governantes zarolhos, o percurso de uma criança que tem de ir para o centro escolar, deixando a sua casa numa aldeia da serra, é idêntico ao percurso de outra criança que se desloca no interior de um aglomerado urbano, desde que a quilometragem seja a mesma. Para estes governantes empedernidos, tudo são números, números e mais números. Governam o país como capatazes de fábricas de pregos. Para quê, afinal?
Tenho pena daqueles que nem nos sonhos conseguem voar!
Luís Costa
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