quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

PEQUENAS UTOPIAS: O PROFESSOR


Todos ouvimos, com saturante frequência, os nossos governantes falarem do aumento da competitividade, da produtividade e da formação, como condições sine qua non para o tão propalado desenvolvimento sustentável, para a convergência com os restantes países da UE. Lindas palavras, belas expressões! Mas é necessário que o seu referente seja real e que não sirvam apenas de pretexto para não aumentar os salários, retirar regalias, impor restrições aos direitos e apresentar números lá fora.

Todo o país passa pelas salas de aula. O presente e o futuro trilham-se, diariamente, letra a letra, nos quadros, nos cadernos e nos livros escolares. Tudo isso se desenha nas mãos do Professor. É, pois, fundamental que este profissional, para além da competência científica e da competência pedagógica, tenha condições para um bom desempenho da sua primeira missão: ensinar. É urgente devolver ao professor as condições necessárias para que ele se apresente perante os seus alunos com a melhor proposta científico-pedagógica e com a estabilidade emocional necessária à interacção com as turmas, que são, como é sobejamente sabido, cadinhos onde fervilham todos os problemas sociais. O que fazer então?

A primeira medida, aquela que se impõe no imediato, é a da devolução do tempo “roubado”. Refiro-me, como é evidente, à saloia componente não lectiva de escola, que é um autêntico atentado à qualidade do trabalho do professor, uma vez que foi desviada do tempo mais do que necessário ao “sagrado” trabalho de bastidores: preparação das aulas, correcção dos trabalhos dos alunos, actualização científica e pedagógica… O docente precisa dessas horas subtraídas para oferecer um trabalho de qualidade, um trabalho que se possa aproximar mais de cada aluno, e não apenas um pacote de serviços mínimos, produzido, executado e corrigido sobre brasas. Quem não puder ― ou não quiser ― entender isto, que não seja ministro da Educação.

A segunda medida é a devolução do mestre ao seu habitat natural: o ensino. Foi para isso que ele estudou e estuda uma vida inteira. É isso que o país espera dele. É isso que o futuro lhe exige. O professor não é um legislador, não é um regulamentador, não é um gestor, não é um… ― vamos lá criar um neologismo ― um “reunior”. O docente não pode consumir todo o seu tempo não lectivo (se esse chegasse…), em trabalhos que muitíssimo pouco têm a ver com os alunos e com as aulas, trabalhos inúteis, devoradores de papel e de tinta, autênticos saqueadores do Orçamento do Estado e vampiros do bom ensino. Tanto dinheiro que poderia ser gasto em bens de primeira necessidade, dinheiro que faria sorrir tantas crianças! É urgente poupar o professor a todo esse desgaste oco, para que ele tenha mais tempo e mais disponibilidade e capacidade de entrega aos seus alunos. Cada órgão que se cria traduz-se em mais reuniões, mais regimentos, mais actas, mais relatórios, mais formulários, mais estatísticas… Ninguém consegue controlar a quantidade de reuniões e de papéis que podem ser exigidos a um docente, e tudo no infinito elástico da sua anoréctica componente não lectiva individual, aquela à qual o valterismo amputou um dos membros. A agravar este quadro orwellinano, estão os projectos curriculares disto e daquilo, os planos de recuperação, de acompanhamento e de desenvolvimento, uma catrefa de fósseis que, na sua maioria, nem sequer foram pensados para beneficiar os alunos e o ensino, mas apenas para catapultarem os níveis negativos para o andar superior, o da hipocrisia estatística, inimiga mortal das palavrinhas ditas na introdução. Tais planos só fazem sentido em casos muito, mas mesmo muito particulares. A sua generalização condena a sua natural vocação, consome as energias que deveriam ser canalizadas para aqueles que realmente precisam: os alunos com necessidades educativas especiais. Urge simplificar estes bastidores da sala de aula para que o professor possa render mais na sua missão essencial.

A terceira pedra é a da autoridade e do respeito. É imperioso retirar o professor do palanque acusatório em que MLR o colocou, pintando-o, aos olhos da sociedade, com as cores da culpa, do desmazelo e da incompetência. Isto, para além da hedionda injustiça latente, foi um autêntico crime de lesa-pátria, pois hipotecou muito do trabalho docente e minou completamente a relação do professor com os alunos, com os encarregados de educação e com os auxiliares de acção educativa. Hoje, esse crime está nu aos olhos de toda a gente ― basta olhar com atenção para as mais recentes propostas do ME relativamente ao Estatuto da Carreira Docente ― , pois toda a sociedade pode perceber, finalmente, que tais insinuações de Lurdes Rodrigues eram apenas o selo branco da legitimação e da aceitação de todas as restrições na carreira, nos salários, nos direitos adquiridos… É necessário que, por palavras escritas e por palavras ditas, os nossos responsáveis devolvam este sagrado tesouro aos professores. O professor tem de ter a confiança dos seus alunos, dos encarregados da educação e dos responsáveis ministeriais. E é de toda a justiça devolver-lhe o que é seu por direito, por mérito e por natureza da sua missão.

A quarta medida tem a ver com a paranóia da avaliação. É claro que é uma peça fundamental, imprescindível em todo este processo. Ela vai ajudar os docentes nesta sua cruzada pela recuperação do seu graal roubado, porque, ao contrário do que o Governo e alguns colunistas ignorantes têm sugerido, os mestres são dos profissionais mais dedicados deste país. Não tenho qualquer dúvida. A avaliação deve centrar-se na área específica do docente ― o ensino ― e deve ser entregue, na sua vertente científica e pedagógica, às universidades, pois, afinal são elas que fazem a formação inicial dos professores. Se não é possível, por questões de pessoal e de verbas, generalizar esta prática, então que se restrinja, enquanto não atingirmos o tal “progresso sustentável”, essa componente da avaliação aos casos mais prementes, sob proposta das escolas. Mas que seja de qualidade o pouco que for possível fazer. A formação, tal como a concebemos actualmente ― escolarizada ― deve apenas resultar de uma necessidade evidenciada durante o processo de avaliação e deve também ser “ministrada” pelas instituições do ensino superior. A escolarização da formação contínua está obsoleta, não se adequa ao mundo actual, não dignifica a classe docente e rouba-lhe tempo social e familiar. Hoje somos mesmo uma aldeia global: temos o mundo e vários mundos de informação e de formação à distância de um clique. Por outro lado, que sentido faz um profissional classificado com Bom, Muito Bom e Excelente, ser obrigado à voltar às carteiras? Mesmo que ganhe um Prémio Nobel na sua área científica, mesmo que seja distinguido por um projecto pedagógico inovador, o professor tem de ter formação escolarizada. É ortodoxo, é dogmático, é irracional.

Por fim, a dimensão familiar e social do professor. Como facilmente se depreende dos parágrafos anteriores, a um profissional dedicado muito pouco tempo sobra para ser pai, ser mãe, ser filho. Como facilmente se deduz, um professor dedicado aos seus alunos, tem de subtrair muito tempo à família, deitar-se tarde e a más horas, levantar-se cedo para dar vazão a todo o caudal de entulho inútil que tem de despachar. A este professor funcionalizado, a este professor limitado ao universo escola-casa, e às inúmeras tarefas que tem de realizar, não resta tempo para desenvolver a sua dimensão social, actualizar-se, integrar iniciativas e instituições sociais, culturais… Enfim, este professor que o Governo tem andado a criar dificilmente poderá ser a referência de que os jovens actuais necessitam. Não perceber esta realidade, ou não querer perceber, é hipotecar irremediavelmente todos os valores que se apregoam para a sociedade e para a Escola, reduzida à dimensão de um corredor cinzento, com tapete rolante, por onde todas as crianças têm de passar.

As reformas que “ignoram” este verdadeiro estatuto do professor são gastos inúteis para o país, perda de tempo, hipocrisia pura e cruel.

Luís Costa

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

"A FALTA DE CLASSE", um texto de Santana Castilho

Farol de Skerryvore, Escócia

Perdoem hoje o estilo. A prosa sairá desarticulada, quais dardos soltos. Este artigo é, conscientemente, feito de frases curtas. Cada leitor, se quiser, desenvolverá as que escolher. Meu objectivo? Manter a sanidade mental. Escorar a coluna vertebral. Resistir. Este artigo é também uma reconfirmação de alistamento na ala dos que não trocam os princípios de uma luta pelo pragmatismo de um lance. Porque amo a verdade e a dignidade profissional como os recém-chegados ao mundo amam o bater do coração das mães. Porque não esqueço os que nenhum lance poderá já compensar. Porque com a partida prematura deles perderam-se pedaços da Escola que defendo. Porque pensar em todos é a melhor forma de pensar em cada um.

A avaliação do desempenho é algo distinto da classificação do desempenho. A avaliação do desempenho visa melhorar o desempenho. A classificação do desempenho visa seriar os profissionais. Burocratas que morreram aos 30 mas só serão enterrados aos 70 tornaram maior uma coisa menor. Quiseram reduzir realidades díspares à unicidade de fichas imbecis. Tiveram a veleidade Kafkiana de particularizar em 150.000 interpretações individuais os objectivos de uma organização comum a todos. Convenceram a populaça que se mede o intangível da mesma forma que se pesam caras de bacalhau. Chefiou-os uma ministra carrancuda, que teve o mérito de unir a classe. Chefia-os agora uma ministra sorridente, que já se pode orgulhar de dividir a classe. Porque, afinal, custa, mas não há classe. Há jogos! De cintura. De bastidores. De vários interesses. Parlamentares, sindicalistas, carreiristas e pragmatistas ajudaram à Babel. Da sua verve jorra a água morna de Laudicéia, a que dá vómitos.

Alçada derreteu o implacável Mário Nogueira que, em socorro da inexperiência da ministra, veio, magnânime, desculpar-lhe as gafes. E, cristãmente, entendeu agora, de jeito caridoso, que não seja suspenso o primeiro ciclo avaliativo. Esqueceu duas coisas: o que reclamou antes e que ciclos avaliativos são falácias de anterior ministra. Ciclos avaliativos, Simplex I, Simplex II e o último expediente (no caso, um comunicado à imprensa, pasme-se) para dizer às escolas que não prossigam com o que a lei estabelece são curiosos comandos administrativos. Uma lei má, iníqua, de resultados pedagogicamente criminosos, devia ter morrido às mãos do parlamento. Por imperativo da decência, por precaução dos lesados, por imposição das promessas de todos. Quanto à remoção das mágoas, meu caro Mário Nogueira, absolutamente de acordo. Depois de responsabilizar os que magoaram. Depois de perguntar aos magoados se perdoam. Por mim, cuja lei foi sempre estar contra leis injustas, a simples caridade cristã não remove mágoas. Não sei perdoar assim, certamente por falta de céu.

Agora, porque sou amigo de Platão mas mais amigo da verdade, duas linhas para Aguiar Branco. Gostei de o ouvir dizer, a meu lado e a seu convite, que a avaliação do desempenho era para suspender. Mas não justifique a capitulação com a semântica. Poupe-me à semântica, porque a semântica não o salva. Enterra-o. Suspender é interromper algo, temporária ou definitivamente. É proibir algo durante algum tempo ou indefinidamente. Substituir é colocar algo em lugar de. Não só não tinha como não terá seja o que for, em 30 dias, para colocar em lugar de. Sabe disso. Bem diferente, semanticamente. Mas ainda mais importante nos resultados. O Bloco Central reanimou-se nas catacumbas e o PS agradeceu ao PSD o salvar da face. Mas os professores voltaram a afastar-se do PSD, apesar do arrependimento patético de Pedro Duarte. E, assim, o PSD falha a vida!

Um olhar aos despojos. Reverbera-se a falta de capacidade de muitos avaliadores para avaliar, mas homologam-se os “Muito Bom” e “Excelente”, que significam mais 1 ou 2 pontos em concurso. Os direitos mal adquiridos de alguns valeram mais que os direitos bem adquiridos de muitos (como resolverão, a propósito, os direitos adquiridos dos “titulares” que, dizem, vão extinguir?). Porque toca a todos, muitos “titulares” que não tinham vagas de “titulares” em escolas que preferiam, foram ultrapassados em concurso por outros de menor graduação profissional, que agora lá estão, em almejados lugares de quadro. Ao mérito, há muito cilindrado, junta-se uma palhaçada final, em nome do pragmatismo. Muitos dos que foram calcados recordam agora que negociar é ceder. Mas esquecem que os princípios e a dignidade são inegociáveis, sendo isso que está em jogo. Um modelo de avaliação iníquo, tecnicamente execrável e humanamente desprezível, que não lhes foi aplicado ao longo de um processo, é agora aceite, em nome do pragmatismo, para não humilhar, uma vez, quem os humilhou anos seguidos.

Sócrates, que se disse animal feroz, vai despindo a pele. Mas não nos esqueçamos da resposta de um dos sete sábios da Grécia, quando interrogado sobre o mais perigoso dos animais ferozes. Respondeu assim: dos bravos, o tirano. Dos mansos, o adulador.

Vão seguir-se meses de negociações sobre o estatuto. O défice, que levou à divisão da carreira e às quotas, agravou-se. Se a desilusão for do tamanho da ilusão, tranquilizem-se porque a FENPROF ficará de fora, como convém, e a FNE poderá assinar um acordo com o Ministério da Educação, como não seria a primeira vez. Voltaremos então ao princípio. O que é importante continuará à espera. Mas guardaremos boas recordações de duas marchas nunca vistas.

Santana Castilho

Público, 25/11/2009

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

PEQUENAS UTOPIAS


Disseram-me que a Dr.ª Isabel Alçada é leitora regular deste blogue e eu acreditei imediatamente. Ao que parece, é sua companhia diária ao pequeno-almoço. Entre uma chávena de café com leite e algumas torradinhas, a extensa capa académica do Dardomeu acompanha o movimento ascendente do cortinado fumegante que se eleva, ondulantemente, da sua xícara de porcelana nacional até à fria superfície do tecto. Sei também que, quando a senhora ministra não dispõe de tempo para tal deleite, tem quem lhe transmita as linhas principais.

Honrado com tamanha distinção, sinto-me no dever moral de discorrer de forma mais construtiva, fazendo uso de toda a minha mesura, adoptando um estilo mais cavalheiresco e uma linguagem mais fina e requintada, perfeitamente adequada ao receptor, quer no corte quer na costura. Assim, a partir de amanhã ― hoje não disponho do tempo nem da tranquilidade necessários ― publicarei três modestas reflexões sobre o estado actual do ensino, adicionando algumas penadas também sobre as minhas “pequenas utopias”: notas terapêuticas muito humildes, saídas do peito e da alma de um simples professor. A primeira será dedicada ao Professor, a segunda ao Aluno e a terceira à Escola.

Espero não estragar o chá das cinco a ninguém!


Luís Costa

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

UMA RISADA

O PSD "recomendou" ao Governo...


... trinta dias para....


Senão...

ORA VAMOS LÁ VER


A obrigatoriedade da entrega dos objectivos individuais e da ficha de auto-avaliação suscita-me algumas questões, em português vernáculo. Vamos a elas!

Afinal, que relevância têm os OI na avaliação dos professores? Quem avaliou a sua pertinência? E a sua Consecução? Importa mesmo o que lá está escrito, ou apenas o facto de se ter entregado um papel? Faz algum sentido, numa instituição com as características de uma escola, haver objectivos individuais? Será honesto prometer resultados que estão longe de depender unicamente do nosso trabalho e da nossa dedicação? Será honesto avaliar um professor com base num documento tão astrológico como este? Se os OI servem apenas para dizer “ámen” ao sistema de avaliação, então, mais do que nunca, é absolutamente proibido entregá-los agora, pois está provado que este não tem pés nem cabeça. Além disso, entregar objectivos depois de o ano escolar ter terminado, seria uma risada cósmica que se ouviria em Orion.

Relativamente à ficha de auto-avaliação, podem e devem colocar-se as mesmas questões. Como fazer uma reflexão honesta sobre o desempenho, se o documento que está na base de todo esse processo ― os OI ―tem as características acima enunciadas? Por outro lado, uma vez que já não se considera obrigatória ― e muito bem ― a sua entrega, então a FAA não será mais do que um relatório crítico da actividade docente (o que os sindicatos se fartaram de sugerir ao Governo). Chegados a este ponto, por que carga de água não foi suspenso todo este processo ― considerado impertinente, trapalhão, grosseiro e iníquo ―, e, como solução transitória, não se adoptou o dito relatório?

Resposta simples, óbvia, mas extremamente ridícula: para manter a face, para se poder afirmar que o famigerado sistema de avaliação de MLR não morreu, não pereceu, nem sequer faleceu. Devemos sussurrar baixinho que o sistema nos deixou, partiu, já não está entre nós… não vá a Dr.ª Lurdes Rodrigues ouvir e acabar por perceber que é dela que estamos a falar! Em honra à sua memória ― do tal que partiu, claro ― devemos aceitar, com resignação, o auto-de-fé daqueles que, desde o seu trágico nascimento, blasfemaram contra ele e também pecaram por actos e omissões. Oremos, pois, irmãos e irmãs!


Luís Costa

domingo, 22 de Novembro de 2009

ENTREVISTA A UM DIÓSPIRO


Profundamente desiludido com a falta de decoro e de carácter que esta semana cobriu o Parlamento de uma pátina de viscoso descrédito, Dardomeu resolveu arejar as ideias, numa vã tentativa de fugir ao Outono deprimente que se instalou na democracia portuguesa. E, precisamente por ser Outono, tempo dos dióspiros, decidiu entrevistar um desses frutos redondinhos. Como perceberão, um azar nunca vem só.

DARDOMEU – Boa tarde, senhor Dióspiro!

DIOSPIRO – Boa tarde! Pode tratar-me por Diospiro. Sei que não é correcto do ponto de vista ortográfico, mas é assim que os meus amigos me chamam. Já me habituei. E soa melhor assim, não acha?

DARDOMEU – Como desejar, senhor Diospiro. Deixe-me então cumprimentá-lo…

DIOSPIRO – Ah! Cuidado! Não me aperte assim, por favor! Não vê que estou mole?!

DARDOMEU – Queira desculpar-me, mas como o vi assim tão rosadinho, tão redondinho…

DIOSPIRO – Engano seu, meu caro! Não se fie nas aparências! Se tivesse vindo aqui há uns tempitos atrás… Aí sim, que podíamos dar um bom bacalhau, mas agora… Aprecia dióspiros!!!

DARDOMEU – Para lhe ser sincero… gosto de algo mais consistente. No Outono, em Trás-os-Montes, preferimos as castanhas! Aqueles picos, aquela casca, aquela polpa…

DIOSPIRO – Bem, eu, há poucochinho, também estava consistente, mas pouca gente gosta de mim nessa fase, porque sou amargo e deixo as línguas ásperas. Agora sim, estou no ponto! Olhe, por falar nisso, bem podia ter colocado três dióspiros nos narizes das senhorias que estão no “post” anterior! Não lhe ocorreu?

DARDOMEU – Sim, ocorreu, mas tinha os tomates mais à mão. Foi uma questão de semântica pragmática. Espero que não me leve a mal!

DIOSPIRO – Ora essa, senhor Dardomeu! Por quem é!!! Sabe que eu já vi muito, já vivi muito, já sou Diospiro há muitos anos. Até já participei num milagre famoso da História de Portugal!

DARDOMEU – Não me diga!

DIOSPIRO – É o que eu lhe digo!

DARDOMEU – Então diga lá.

DIOSPIRO – Na Idade Média…

DARDOMEU – Na Idade Média?!

DIOSPIRO – Surpreendido, não?! Pois fique sabendo que D. Isabel não levava pão no regaço. Ela ia era carregadinha de dióspiros bem madurinhos, bem aconchegadinhos, apertadinhos uns contra os outros! Ia dá-los ao povo. Quando apareceu D. Diniz, ela contraiu-se toda e eles amassaram-se todos. Só ficaram as peles, que foram confundidas com pétalas de rosa. E foi assim que se deu o milagre!

DARDOMEU – Vários milagres! Inacreditável! Estou completamente diospirado!

E foi assim que terminou esta minha semana miserável: vampirado e diospirado! Só me apetece pirar-me deste filme também!


Luís Costa

sábado, 21 de Novembro de 2009

"UMA QUESTÃO DE SEMÂNTICA"

Com os prestimosos cumprimentos de Dardomeu!

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

“ANIMAL FARM”


O debate de hoje, no Parlamento, e algumas metamorfoses que vejo na Net, trouxeram-me à memória uma das obras mais marcantes na minha personalidade: “Animal Farm” de George Orwell, cujo título, quando atravessou a fronteira, foi expropriado e muito mal traduzido para “O Triunfo dos Porcos”. Não percebo por que motivo os títulos, quando adaptados para a nossa língua, têm de ter mais sensacionalismo, mais sangue ou mais porcaria. Adiante.

Nessa extensa fábula, um porco ― Old Major ― concebeu os princípios que haveriam de estar na base de uma revolta dos animais, liderados pela vara, contra o tirano do dono da quinta ― Mr. Jones. Como aquele ideólogo morreu prematuramente, foi Snowball o estratego da almejada revolta, que acabou por acontecer, de acordo com os engenhosos planos do bácoro e dos seus companheiros. Expulso o ditador, ficaram os líderes revoltosos no comando da quinta, com a anuência da restante bicharada mais ou menos acéfala.

Aos poucos, a nova classe dirigente foi assumindo não só as competências do antigo dono, como também as suas manias, regalias, mordomias, supremacias… No entanto, Snowball, fidelíssimo aos seus ideais, manteve-se firme nos seus propósitos, contestando e denunciando os abusos que os restantes porcos, liderados por Napoleon, iam acumulando diariamente, com criminosa desfaçatez. O democrata foi expulso da quinta pelos cães, fiéis tapetes do novo regime, sendo acusado de traição e, mais tarde, de tudo o que de mal acontecia ali: façanhas normalmente perpetradas pela “porcalhada”. Escusado será dizer que, a pretexto de defender os animais de tão abominável traidor ― o íntegro Snowball ― todas as liberdades, direitos e garantias foram definhando a cada dia que passava. No final, os mandamentos democráticos pintados na porta do celeiro, submetidos à finória pena de Squealer, acabaram, também eles, por sofrer estas ligeiras nuances (assinaladas, aqui, a cor-de-rosa e laranja):

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.
7. Todos os animais são iguais, mas alguns são mais que outros.

MORAL DA HISTÓRIA, À MINHA MANEIRA – Para uns, os valores estruturam-se, hierarquizam-se, tornando-se um tesouro sagrado que pauta toda a sua conduta. Para outros, os valores são trunfos que se jogam, em valentes cartadas, para obter determinados fins. Para outros ainda, a sobrevivência é o único valor. A bela história de “Animal Farm” ilustra muito bem o que, normalmente, acontece aos primeiros, aos segundos e aos terceiros. Tenho dito!


Luís Costa

HORA DA MERDADE


quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

LARANJÃO

País suspenso
Na suspensão
Da suspensão
Da negação

Pender
Ou suspender
Eis a questão

A injustiça
E a divisão
Têm suspensão
A honra
Não

País suspenso
De um consenso
Apenso
De traição

Será laranja
E limão


Luís Costa

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

CHUTAM-SE OS TENTOS

Fabrizio Riccardi

Chutam-se os tentos, chutam-se as verdades,
Chuta-se o ser, chuta-se a confiança;
Todo o mundo é composto de esquivança,
Tomando sempre novas dignidades.

Continuamente temos novidades,
Diferentes em tudo da aliança;
A honra anda vendida à cobrança
A palavra rendida às falsidades.

Adicionar imagem
O tempo cobre o chão de desencanto,
Que já coberto foi de alegria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este esquivar-se cada dia,
Outra lambança faz de mor espanto:
Que não se pensa já como soía.

Luís Costa

Nota – Poema ladrão feito a partir do soneto camoniano “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

POST "TOLÓGICO"

Ontem à noite, quando navegava nas ondas calmas da Net, topei com um "post antológico" sobre ADD, no qual se aconselha a entregar a ficha de auto-entrega. Como não tenho muito tempo para dissertações sobre valores, dedico este vídeo a quem, infelizmente, não pode chegar mais além!




Luís Costa

domingo, 15 de Novembro de 2009

POLÍTICA DE MERDADE


Continuo à espera que alguma alma qualquer do PSD venha a terreiro dizer por que carga de água foi suspensa a suspensão do sistema de avaliação docente! Estou sentado, como é óbvio, pois já me bastam as horas que passo de pé na escola. A confirmar-se o dolo deste lapso, só terei uma palavra para qualificar tal episódio: I-G-N-Ó-B-I-L!

Entretanto, enquanto espero, apetece-me dizer umas coisas sobre toda a "legalidade" que invadiu os blogues de Norte a Sul de Portugal. Depois das palavras da verdadeira Isabel Alçada ― eu preferia que continuasse apenas a escrever com Ana Maria Magalhães ―, depois da primeira farpada nos peitos mais denodados, muita gente foi, a correr, pegar na legislação e fazer a revisão da matéria dada. Muita gente caiu no engodo da senhora ministra e do seu tutor político, que insiste em não lhe dar margem nenhuma. Coitada! E logo ela, que vinha tão bem intencionada!

A verdade, no meu entender, está noutro patamar, meus prezados colegas. Resistir, não pactuar e até boicotar este sistema de avaliação, isso sim é que era, e é, UM DEVER DE QUALQUER PROFESSOR DIGNO E HONRADO! Este autêntico embuste foi congeminado ― todos sabemos isso ― para nos impedir de progredir na carreira e, simultaneamente, obter sucesso estatístico fácil, mas ruinoso para os alunos das famílias mais modestas. A grande verdade é esta: este sistema de avaliação, além destas iniquidades, é ainda um monstro burocrático, técnico e pedagógico. Não foi pensado para melhorar a qualidade do ensino! Toda a gente reconhece a sua anormalidade, mas o Governo pretende punir na praça pública aqueles que mais firmemente lhe fizeram frente: premeia-se o conformismo, a resignação e castiga-se a coragem, a verticalidade, a nobreza de carácter. Parabéns, senhora escritora de contos juvenis!

Quantas leis infringiu Salgueiro Maia, nas vésperas e no dia 25 de Abril de 1974? Se quiséssemos ser rigorosos, até multas de trânsito lhe poderiam ter sido aplicadas. Se fosse hoje, que temos muito mais democracia, alguém accionaria o batente da porta da sua casa para lhe dizer o seguinte:

― Queremos agradecer-lhe a liberdade, mas vai ser presente ao senhor juiz, porque a Lei, meu caro senhor, é para se cumprir! Hoje, já dormirá no calabouço!


Luís Costa

sábado, 14 de Novembro de 2009

POLÍTICA SEM DIGNIDADE?

«Suspenderemos, porém, o actual modelo de avaliação dos professores, substituindo-o por outro que, tendo em conta os estudos já efectuados por organizações internacionais, garanta que os avaliadores sejam reconhecidos pelas suas capacidades científicas e pedagógicas, com classificações diferenciadas tendo por critério o mérito, e dispensando burocracias e formalismos inúteis no processo de avaliação.»
Programa Eleitoral do PSD


É necessário que a Dr.ª Manuela Ferreira Leite venha urgentemente a público esclarecer as notícias inacreditáveis que chegam lá das bandas do seu partido. Ou estamos perante um desmesurado equívoco, ou então caímos no grau zero da política. Os Portugueses não merecem isto!

Se o PSD “alinhar” nesta traição, nem a mudança de vinte líderes será suficiente para apagar tamanha vergonha! Estará o PSD a fazer Política Sem Dignidade? Ainda quero acreditar que não!

Luís Costa

UMA DESVENTURA!


Finalmente, surgiu a primeira frase de Isabel Alçada com algum significado: não quer avaliar os professores que resistiram às injustiças de um modelo de avaliação que, agora, toda a gente pretende abolir. Para além da ignorância que revela ― parece que o trabalho de um professor só pode ser avaliado se ele entregar papéis contendo tretas com objectivos individuais e ficha de auto-avaliação com mais tretas sobre, basicamente, a mesma coisa ―, confirma as minhas mais tenebrosas suspeitas, expressas em “Sherazade”, três degraus abaixo, neste blogue: há fome de vingança. A senhora ministra e o seu chefe aceitam alterar o aborto de MLR, mas exigem um sacrifício: as cabeças dos "subversores".

Assim seja, senhora ministra!

Luís Costa

P.S. - Espero que os partidos da oposição não façam da bandeira dos professores moeda de troca para nada!

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

"PAROLES, PAROLES"


O título expressa muito bem tudo o que pode, em consciência, ser dito a propósito da entrevista de Isabel Alçada à RTP. Querer mexer nisto e naquilo não me diz nada, absolutamente nada. Afinal, é o que fazem todos os ministros, no seu quintal. Depois, mexer não significa que seja para melhor. MLR mexeu em tudo e várias vezes e sempre mal e sempre pior… Quanto a intenções… só Deus tem abrangência suficiente para poder julgá-las! E sou um autêntico analfabeto a julgar intenções! Muitas vezes, até as minhas!

Embora Isabel Alçada tenha tanto de professora como eu de adolescente ― uma terna recordação ―, estou desejoso de dizer bem, de elogiar o seu trabalho, até porque estou quase a esgotar os recursos estilísticos associados à arte de ”maldizer”! Tenho um autêntico tesouro de encómios e louvores, mas só o abrirei se a senhora ministra falar a única linguagem que posso entender: factos!

Luís Costa

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

MANTER A FACE


A divisão artificial da carreira docente em duas categorias ― professor e titular ― é assumida por todos os partidos (até pelo PS, embora timidamente) como algo profundamente injusto, algo que jamais deveria ter acontecido. No entanto, a senhora ministra, para manter a face do Governo anterior, insiste em validar um sistema de avaliação que foi, todo ele, construído e levado à prática sobre essa tremenda injustiça, sobre essa tremenda iniquidade. Quem são os avaliadores? Quem pôde exercer cargos nas escolas? Quem teve de vir para a rua gritar? E agora? Vão ser premiados os que se resignaram a este modelo e castigados os que resistiram, aqueles a quem se deve a esperança de que se fala?

Há muita gente a ajudar a senhora ministra a levar esta água suja ao moinho de José Sócrates. Gente que, no mandato de MLR, nunca disse que o PM não lhe dava margem de manobra para ceder. MLR sempre foi vista como protagonista das suas decisões. Honra lhe seja feita por isso! Se Isabel Alçada não tinha a margem que pretendia para ser a ministra que se apregoa por aí, então deveria ter recusado o convite de Sócrates. Uma vez que aceitou, deve ser responsabilizada pelas suas decisões. E está mais do que na hora de dizer o que pretende de facto, sem rodeios, sem enredos, sem peripécias, sem as gastas banalidades consensuais.

Como não ando lá muito familiarizado com a cirurgia plástica, não sei quanto custa manter a face. Mas deve ser coisa cara, sobretudo para os paga-crises!


Luís Costa

SHERAZADE



«Schahriar, rei da Pérsia, vitimado pela infidelidade de sua mulher, mandou matá-la e resolveu passar cada noite com uma mulher diferente, que mandava degolar na manhã seguinte. Recebendo como mulher a Sherazade, esta iniciou um conto que despertou o interesse do rei em ouvir-lhe a continuação na noite seguinte. Sherazade, por artificiosa ligação dos seus contos, conseguiu encantar o monarca por mil e uma noites e foi poupada da morte.»

Wikipédia

Segundo "consta", numa das histórias que Sherazade contou a Schahriar, um grupo de homens valentes levantou toda uma tribo contra a tirania de um sultão. Conhecendo a flacidez do seu exército, corrompido e bem anafado por muitos anos de mordomias, o tirano decidiu enveredar pela via da esperteza, evitando assim os inevitáveis e desastrosos estragos nas suas hostes podres. Aconselhado por uma comadre sua, uma fada da dança do ventre, fez então uma tentativa pacífica-entre-aspas, para recuperar a soberania absoluta de que gozava. Infiltrou alguns emissários na tribo revoltosa, com uma arma poderosíssima: a ilusão. E esses hábeis faladores andaram de porta em porta, de rua em rua, de praça em praça, de feira em feira, hiperbolizando a bonomia do sultão, multiplicando por mil o poderio do seu exército, inventando oásis no deserto, colorindo benfeitorias para a tribo, semeando mentiras sobre seus líderes, que, segundo esses ilusionistas, estavam prestes a conduzir todo o povo para um autêntico holocausto. Sugeria-se a quase vidinha de quase todos em troca do sacrificiozinho de alguns.

A ilusão, como as ervas daninhas, espalhou-se rapidamente por toda a tribo. Então…

O resto já não “m’alembra”!

Luís Costa

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

CONTRA-REFORMA


No meu entender, já foi gorada a primeira possibilidade de a professora Isabel Alçada dar provas da sua afinidade com os problemas da classe a que pertence(u): deveria ter recusado ser ministra da Educação de José Sócrates. Como não teve tal atitude, resta-nos confiar que o engenheiro lhe deu suficiente margem de manobra e acreditar que, sendo tão nossa amiga ― logo, amiga dos alunos ― e tão conhecedora dos nossos reais problemas, aceitou o cargo para fazer a contra-reforma por dentro do sistema, com a subtileza de Sherazade. E o que podemos, legitimamente, esperar?

Em primeiro lugar, penso que a nossa ministra da Educação já percebeu, há muito tempo, que não é possível construir nada de bom, nada de justo e seguro sobre dois pilares podres: a divisão arbitrária, fictícia e cega da carreira em duas alegorias e o sistema de ilusão docente. Por isso, penso que a senhora Dr.ª Isabel Alçada vai mesmo suspender tais iniquidades e iniciar, de imediato, os trabalhos para a sua substituição por duas colunas de aço inoxidável. Em segundo lugar, estou convicto de que a nossa ministra, consciente do trabalho de bastidores dos mestres deste país, vai devolver aos colegas todo o tempo semanal que foi espoliado pela sua antecessora, acabando com as horas da componente anulativa de escola. A qualidade do ensino vai agradecer! Em terceiro lugar, tenho a certeza de que a titular da nossa pasta vai meter no triturador toda a papelada inútil ― acérrima inimiga do ambiente ―, que consome tempo, consome paciência, consome a pedagogia, consome a saúde mental dos professores, consome-se a si mesma. Nem menciono, por alergia e saudável repugnância, o nome de tantos regulamentos, regimentos, projectos, planos disto e daquilo, grelhas que dariam para atulhar sucatas inteiras… Pronto, já estou enjoado! E nem sequer lhes mencionei o querido nome!

Como podem constatar, não falei de salários, de subidas de escalão, tempo de serviço para concurso e reforma… Seria um professor realizado, se a nossa ministra ― a ministra do povo ― deixasse bem varrida esta soleira pedagógica. Se é para fazer o recobro do sistema, há que começar pelo coração!

Luís Costa

P. S.- Ainda não me apeteceu escrever “contra-reforma” à moda do acordo ortográfico. Caprichos!

sábado, 7 de Novembro de 2009

CRIME


Enquanto algures, noutra atalaia ― a pretexto de uma funcionalidade serôdia ― se fazem arrumações e “limpezas” que acabam por reduzir o volume às vozes desenganadas relativamente a Isabel Alçada; enquanto algures, noutra atalaia, se gere muito mal o equilíbrio entre uma amistosa mesura e os interesses profundos de toda uma classe profissional, o Dardomeu ― eterna Fénix ― continua a dar mostras da sua “covardia”, olhando para a realidade apenas com o seu olhar descomprometido. Pode ser ignorante e ter miopia, mas é genuíno e imparcial.

Contrariamente a muita coisa que já li, não consigo ver na renovação dos edifícios das escolas secundárias uma medida positiva a abrilhantar o mandato de Lurdes Rodrigues ― que Deus a tenha em eterno descanso e paz! Na minha perspectiva de “campónio” transmontano e rude, tomo a liberdade de considerar um crime tudo aquilo que vejo crescer no interior dos perímetros escolares. Em primeiro lugar, essas edificações a granel tresandam a escolas abandonadas no interior do país, tresandam a desertificação, tresandam a injustiça na distribuição da riqueza de Portugal. Em segundo lugar, esses galinheiros de cimento, que vejo crescer como cogumelos, estão a devorar os espaços exteriores das escolas, inundando-os de sombrias e claustrofóbicas figuras geométricas de betão: as escolas que conheço estão a transformar-se em guetos, onde, das janelas das salas de aula se vê apenas outras salas de aula. Finalmente, nas escolas mais antigas que conheço ― como a Sá de Miranda, por exemplo, que é um edifício belo e imponente ― os anexos que fizeram são autênticos pontapés arquitectónicos, não só no rosto do edifício principal como também nas ancas das habitações vizinhas.

Temo que as consequências destes atentados ― motivados, uma vez mais, pela pressa de fazer, deixando o pensamento para depois ― sejam irreversíveis. Temo que tudo isto tenha sido decidido para encatrafiar, à pressa e à força, a avalanche que vem aí, a reboque do alargamento do ensino obrigatório. Lamento que tudo isto não se fique pelo vómito estético e arquitectónico, mas que também alague o terreno pedagógico.


Luís Costa