A Quinta do Soslaio mais parecia um
testemunho de estafeta, tal era o seu afã
em andar de mão em mão. Depois da D. Gertrudes e da menina Patareca — única
herdeira de D. Caramela, que, por ser viúva, velha e perra como uma cancela de
lameiro, endossara imediatamente a herança da irmã à sua filha coquete e oca de
nascença —, a herdade tocou em sorte a um mancebo da Capital, o Matateu, parente
muito afastado desta linhagem de fazendeiros. Era afastado, mas era parente, e
por isso recebeu e honrou o testemunho. Nem Rossios, nem Chiados nem Pombais lhe
haviam conspurcado o que de mais íntimo tinha nos genes: a vocação para criar e
gerir galinheiros. Logo que pôde, o moço apresentou-se na herdade.
Inteligente e espigadote como
qualquer alfacinha de gema, o jovem optou por não entrar de chancas na quinta,
sobretudo na capoeira, onde, segundo lhe constara, as coisas não eram
propriamente canja de galinha, embora também não constasse que se cantava de
galo. Ainda assim, à cautela, entrou maneirinho, para poder tirar as medidas ao
tesouro. E assim foi. Nos primeiros dias, o marialva só andou por ali, sempre
de lenço perfumado a entupir-lhe a narigana corvina, a menar, a topar, a catar,
a contar, a calcular, a congeminar, a estratagemar… Finalmente, iria poder
tirar partido de tantos anos de experiência nos Restauradores a contar os carros
que passavam! Enquanto isso, a galinhada foi relaxando, baixando a guarda, depenicando
no chão com bico de precisão microscópica (tal era a fartura), pondo ovos
escanzelados (com casca ou sem ela), vivendo na pior das imundices, na maior
das desordens, tudo ao molho…
— Estou feito! — exclamou ele um dia,
ao morrer da tarde, afastando, com um safanão inteligente, os papéis
quadriculados, esquartejados de sarrabiscos. — As galinhas estão completamente
alienadas, já estão por tudo, já nem sabem a diferença entre pôr e defecar! Eu
não tenho tosto, e a quinta está pior do que as calças coçadas de um almocreve!
Por Pitágoras, como me safo disto?!
E lá voltou o rapaz da cidade aos mais
recônditos becos da meditação metódica. Ser exigente e produzir ovadas de
qualidade não era possível, pois nem sequer tinha cheta para limpezas, quanto mais para milho e rações!
Estava fora de questão! O que havia de fazer? No imediato, por muito que lhe
custasse, os ovos teriam de ser todos de tamanho S, mas sempre lhes poderia dar
uma apresentação mais catita, talvez com um selo alaranjado de qualidade.
Afinal, o tamanho não era o mais importante! Bem, no tocante aos galináceos, sempre
poderia dar ainda mais expressão ao lema da sua dinastia — mais com menos — tão
bem encarnado por D. Gertrudes e menina Patareca: juntar todas as pitas e seus
pitos na ala direita do galinheiro, em vários andares… Depois, podia alugar a
parte sobrante e aplicar os rendimentos em… em… estudos, inquéritos,
estatística cosmética, manicura, pedicuro... Sim, sim!
Bêbedo de euforia, o Matateu deu volta
à quinta a pular de contente, batendo com os calcanhares nas nádegas das calças
de ganga americana. Eureka! Encomendara uma saída à inteligência, e recebera
dela, sem cobrança nem fiança, em correio azul, registado e com aviso de
receção, tudo quanto desejara, e com juros: iria vender a quinta, em leilão, nem
que fosse a chineses. Com boas estatísticas, com boas fotos, com umas quantas
poses, um pouco de Photoshop aqui, uma musiquita ali, como pechincha de pegar ou
largar… alguém haveria de ficar de olhos em bico e pegar-lhe!
Dias depois, já o Sol se deitava nos
peitos da colina, espalhando sombras e penumbras por todo o lado, chegou à Quinta
do Soslaio um homem de gabardina cinzenta e óculos escuros. Vinha às arrecuas,
para garantir total ausência de subjetividade e a exigida imparcialidade da avaliação
que lhe fora encomendada por um amigo de um conhecido de um compadre do primo
do Matateu. Encostou-se à janela do galinheiro e, através da rede, sem olhar a
pita Capataza, disse-lhe:
— Venho fazer um inquérito de qualidade,
produtividade, limpeza, bem-estar, realização galinhal… Enfim, estou aqui para saber
tudo, tudo, tudo e tudo, ouviu?
— Cóoooooo! — anuiu a ave de chão.
— Então é assim: se as senhoras pitas acham
que aqui está tudo nos conformes (ovos, ninho, palha, limpeza e tal e tal…)
diga-lhes que se juntem no comedouro, que acaba de ser atestado com milho
pipoqueiro; as galinhas que acham que as coisas só estão assim-assim, ou seja,
nem bem nem mal, antes pelo contrário, que se juntem todas no cagaçal, como
puderem; as que acham que isto por aqui vai de mal a pior, então que se amouxem
junto à porta do matadouro. Entendeu?
— Cóoooooo! — respondeu a Capataza, olhando fixamente as costas do visitante.
Nos instantes seguintes, foram ouvidos vários
cacarejos da Capataza, seguidos de um curtíssimo silêncio sepulcral, que pariu o
mais confuso, o mais aflito e o mais seco dos ruídos. O galinheiro parecia tomado
por um ciclone, que pariu uma trovoada, que pariu uma intensa granizada. Eram
as galinhas a bicar freneticamente os comedouros de pinho.