
Todo o país passa pelas salas de aula. O presente e o futuro trilham-se, diariamente, letra a letra, nos quadros, nos cadernos e nos livros escolares. Tudo isso se desenha nas mãos do Professor. É, pois, fundamental que este profissional, para além da competência científica e da competência pedagógica, tenha condições para um bom desempenho da sua primeira missão: ensinar. É urgente devolver ao professor as condições necessárias para que ele se apresente perante os seus alunos com a melhor proposta científico-pedagógica e com a estabilidade emocional necessária à interacção com as turmas, que são, como é sobejamente sabido, cadinhos onde fervilham todos os problemas sociais. O que fazer então?
A primeira medida, aquela que se impõe no imediato, é a da devolução do tempo “roubado”. Refiro-me, como é evidente, à saloia componente não lectiva de escola, que é um autêntico atentado à qualidade do trabalho do professor, uma vez que foi desviada do tempo mais do que necessário ao “sagrado” trabalho de bastidores: preparação das aulas, correcção dos trabalhos dos alunos, actualização científica e pedagógica… O docente precisa dessas horas subtraídas para oferecer um trabalho de qualidade, um trabalho que se possa aproximar mais de cada aluno, e não apenas um pacote de serviços mínimos, produzido, executado e corrigido sobre brasas. Quem não puder ― ou não quiser ― entender isto, que não seja ministro da Educação.
A segunda medida é a devolução do mestre ao seu habitat natural: o ensino. Foi para isso que ele estudou e estuda uma vida inteira. É isso que o país espera dele. É isso que o futuro lhe exige. O professor não é um legislador, não é um regulamentador, não é um gestor, não é um… ― vamos lá criar um neologismo ― um “reunior”. O docente não pode consumir todo o seu tempo não lectivo (se esse chegasse…), em trabalhos que muitíssimo pouco têm a ver com os alunos e com as aulas, trabalhos inúteis, devoradores de papel e de tinta, autênticos saqueadores do Orçamento do Estado e vampiros do bom ensino. Tanto dinheiro que poderia ser gasto em bens de primeira necessidade, dinheiro que faria sorrir tantas crianças! É urgente poupar o professor a todo esse desgaste oco, para que ele tenha mais tempo e mais disponibilidade e capacidade de entrega aos seus alunos. Cada órgão que se cria traduz-se em mais reuniões, mais regimentos, mais actas, mais relatórios, mais formulários, mais estatísticas… Ninguém consegue controlar a quantidade de reuniões e de papéis que podem ser exigidos a um docente, e tudo no infinito elástico da sua anoréctica componente não lectiva individual, aquela à qual o valterismo amputou um dos membros. A agravar este quadro orwellinano, estão os projectos curriculares disto e daquilo, os planos de recuperação, de acompanhamento e de desenvolvimento, uma catrefa de fósseis que, na sua maioria, nem sequer foram pensados para beneficiar os alunos e o ensino, mas apenas para catapultarem os níveis negativos para o andar superior, o da hipocrisia estatística, inimiga mortal das palavrinhas ditas na introdução. Tais planos só fazem sentido em casos muito, mas mesmo muito particulares. A sua generalização condena a sua natural vocação, consome as energias que deveriam ser canalizadas para aqueles que realmente precisam: os alunos com necessidades educativas especiais. Urge simplificar estes bastidores da sala de aula para que o professor possa render mais na sua missão essencial.
A terceira pedra é a da autoridade e do respeito. É imperioso retirar o professor do palanque acusatório em que MLR o colocou, pintando-o, aos olhos da sociedade, com as cores da culpa, do desmazelo e da incompetência. Isto, para além da hedionda injustiça latente, foi um autêntico crime de lesa-pátria, pois hipotecou muito do trabalho docente e minou completamente a relação do professor com os alunos, com os encarregados de educação e com os auxiliares de acção educativa. Hoje, esse crime está nu aos olhos de toda a gente ― basta olhar com atenção para as mais recentes propostas do ME relativamente ao Estatuto da Carreira Docente ― , pois toda a sociedade pode perceber, finalmente, que tais insinuações de Lurdes Rodrigues eram apenas o selo branco da legitimação e da aceitação de todas as restrições na carreira, nos salários, nos direitos adquiridos… É necessário que, por palavras escritas e por palavras ditas, os nossos responsáveis devolvam este sagrado tesouro aos professores. O professor tem de ter a confiança dos seus alunos, dos encarregados da educação e dos responsáveis ministeriais. E é de toda a justiça devolver-lhe o que é seu por direito, por mérito e por natureza da sua missão.
A quarta medida tem a ver com a paranóia da avaliação. É claro que é uma peça fundamental, imprescindível em todo este processo. Ela vai ajudar os docentes nesta sua cruzada pela recuperação do seu graal roubado, porque, ao contrário do que o Governo e alguns colunistas ignorantes têm sugerido, os mestres são dos profissionais mais dedicados deste país. Não tenho qualquer dúvida. A avaliação deve centrar-se na área específica do docente ― o ensino ― e deve ser entregue, na sua vertente científica e pedagógica, às universidades, pois, afinal são elas que fazem a formação inicial dos professores. Se não é possível, por questões de pessoal e de verbas, generalizar esta prática, então que se restrinja, enquanto não atingirmos o tal “progresso sustentável”, essa componente da avaliação aos casos mais prementes, sob proposta das escolas. Mas que seja de qualidade o pouco que for possível fazer. A formação, tal como a concebemos actualmente ― escolarizada ― deve apenas resultar de uma necessidade evidenciada durante o processo de avaliação e deve também ser “ministrada” pelas instituições do ensino superior. A escolarização da formação contínua está obsoleta, não se adequa ao mundo actual, não dignifica a classe docente e rouba-lhe tempo social e familiar. Hoje somos mesmo uma aldeia global: temos o mundo e vários mundos de informação e de formação à distância de um clique. Por outro lado, que sentido faz um profissional classificado com Bom, Muito Bom e Excelente, ser obrigado à voltar às carteiras? Mesmo que ganhe um Prémio Nobel na sua área científica, mesmo que seja distinguido por um projecto pedagógico inovador, o professor tem de ter formação escolarizada. É ortodoxo, é dogmático, é irracional.
Por fim, a dimensão familiar e social do professor. Como facilmente se depreende dos parágrafos anteriores, a um profissional dedicado muito pouco tempo sobra para ser pai, ser mãe, ser filho. Como facilmente se deduz, um professor dedicado aos seus alunos, tem de subtrair muito tempo à família, deitar-se tarde e a más horas, levantar-se cedo para dar vazão a todo o caudal de entulho inútil que tem de despachar. A este professor funcionalizado, a este professor limitado ao universo escola-casa, e às inúmeras tarefas que tem de realizar, não resta tempo para desenvolver a sua dimensão social, actualizar-se, integrar iniciativas e instituições sociais, culturais… Enfim, este professor que o Governo tem andado a criar dificilmente poderá ser a referência de que os jovens actuais necessitam. Não perceber esta realidade, ou não querer perceber, é hipotecar irremediavelmente todos os valores que se apregoam para a sociedade e para a Escola, reduzida à dimensão de um corredor cinzento, com tapete rolante, por onde todas as crianças têm de passar.
As reformas que “ignoram” este verdadeiro estatuto do professor são gastos inúteis para o país, perda de tempo, hipocrisia pura e cruel.



















