Sábado, 17 de Março de 2012

Lucky Luke Português



Há, em terras lusitanas, um Lucky Luke português, um Lucky Luke empírico, fenomenológico, vivinho da Silva. Bem dizia Camões que nós temos por cá, reais e verdadeiros, heróis que noutros países e culturas só imaginados existem. Caramba, já é tempo de valorizarmos o que é nacional! Aqui fica, pois, a minha singela homenagem.

Embora não tão solitário como o da BD, o nosso lonesome cavaleiro pede meças ao boneco, no que toca a ser mais rápido do que a sua sombra. Se este ganha em duelo à sua silhueta, já o nosso herói é vertiginoso a fintar as suas próprias convicções, ou simples opiniões. Ainda elas mal foram perfilhadas, já ele deita o laço certeiro a outras. Montado no seu cavalo – tido como o mais esperto do mundo –, ele bate aos pontos qualquer ovni, a mudar de direção. Mas também não lhe falta o seu insubstituível, o seu inimitável, o seu inseparável Rantamplan, tido, injustamente, como o cão mais estúpido do universo. Como cão até pode ser verdade, mas conheço políticos muito piores. Que graça teria o nosso cobói sem o seu rafeiro pateta? Nenhuma, pois claro! Se um fosse o alter ego do outro não se completariam tão bem. Juntos, fazem uma das parelhas mais cómicas cá da praça. Olé!

Então… e os Dalton? O nosso herói também tem irmãos Dalton? – perguntar-se-ão os meus leitores. Pois, em boa verdade vos digo que Dalton é coisa que não falta neste país. Isto parece mesmo um offshore daltónico. Mas o nosso lonesome cobói dá-se bem com eles. É essa a sua forma peculiar de estar na vida: cavaleiro andante (vai com uns e vem com outros).

Sexta-feira, 16 de Março de 2012

I love you, ADD!


Lady Gaga

Tanta, tanta e tanta luta, afinal, para nada! A ADD veio para ficar e ficou mesmo, como a Toyota Dyna! E sabem porquê? Porque ela era (e é) realmente tudo o que dizia ser. Rendo-me, por isso, em toda a linha! I love you, ADD!

Dizem que a verdade vem sempre à tona, e é bem verdade (passo o pleonasmo). Decorrido o tempo necessário para que a poeira assentasse, podemos agora ver claramente toda a essência, toda a pertinência e toda a decência desta tão injustamente difamada ADD. E pensar que eu mesmo disse mal dela até mais não! Se arrependimento matasse… Bem, façamos-lhe justiça. Mais vale tarde do que nunca!

Em primeiro lugar, a ADD é mesmo essencialmente formativa e tem repercussões, (diretas, indiretas e benéficas) no processo de ensino e, sobretudo, no processo de aprendizagem. Se, inicialmente, tais desígnios pareciam meramente demagógicos, evidentemente falaciosos, hoje já ninguém os discute sequer. Tornaram-se dogmáticos, míticos, sagradamente irrefutáveis. Em segundo lugar, a ADD é justa e premeia mesmo a competência. Nem passa bola aos amigos dos diretores, nem aos concordantes de serviço, nem aos temporariamente e espacialmente mudos. Nada disso. Ao invés, a ADD só se dá bem com quem é realmente bom, pedagógica e cientificamente. Os seus favores… ela reserva-os para os melhores, para os melhores dos melhores, a bem da preservação e da excelência da espécie. De tão bons cruzamentos, só há que esperar bons frutos, boa descendência. Finalmente, a ADD é recatada, discreta, misteriosa, como convém a uma femme fatale. Ninguém sabe quem ela recusou, de quem ela desdenhou, a quem ela deu esperanças, a quem ela se entregou, a quem se deu mais, a quem ela disse “Sou toda tua!”, a quem ela doou corpo e alma... Podemos fazer suposições, falar à boca pequena, mas ao certo ninguém sabe. E bem, porque esta lady is a tramp.

Quinta-feira, 15 de Março de 2012

Exkolok


Numa galáxia muito distante, num dos seus inúmeros sistemas solares, há um pequeníssimo planeta: é o planeta Exkolok.

Habitado apenas por três raças da mesma espécie — os Ranhoks, os Troks e os Baldroks —, Exkolok é um autêntico gueto de paz, de concórdia e de monotonia, tanta monotonia que os Exkolokianos decidiram mesmo fazer, ao levantar e ao acordar, o seu sinal da cruz aos beliscões (na testa, no nariz, no queixo, nas bochechas e no peito), para se sentirem vivos. Em tempos remotos, quando ainda não tinham atingido maturidade civilizacional, chegaram a manifestar sinais de pluralismo, divergências, tendência para o contraditório, mas tudo isso acabou sempre em querelas inúteis, desentendimentos perniciosos, retrocessos sociais e culturais. Felizmente, tudo aquilo passou aos compêndios de História e agora vivem-se ali tempos de serena prosperidade. Calmaria a mais, é certo, mas, não se estando no Céu não se pode exigir perfeição em lado nenhum. Nem sequer em Exkolok.

Há uns anos atrás — lá os anos têm nove meses —, para animar o dia-a-dia de Troks, Baldroks e Ranhoks, o seu magnânimo líder, Politok Krapulok, engendrou uma estratégia motivacional, batizada por ele mesmo como Plano Iskok. No seu entender, os Exkolokianos, vaidosos, invejosos e orgulhosos como eram, não resistiriam aos seus iskoks. Não só iriam querer colecioná-los todos, como também passariam o tempo todo muito mais entretidos, distraídos... E assim foi. O tipo não se enganou.

O Plano Iskok, embora simples, tem-se revelado terrivelmente eficaz. Consiste no seguinte: quem conseguir dizer “brêtebe-ranhotek-fanhok-chok-chok” da forma que mais agrade ao soberano, pode pendurar dois tomates no nariz; quem conseguir dizer “brêtebe-ranhotek-fanhok-chok-chok” mais vezes sem se enganar, pode acoplar uma cauda, em forma de beringela; quem conseguir fazer mais combinações rimáticas com a sequência vocabular “brêtebe-ranhotek-fanhok-chok-chok” pode andar de palito na boca.

Desde que o genial Krapulok pariu este não menos genial plano, os Exkolokianos, cada um para o seu lado, cada um no seu canto, cada um na sua monótona sintonia de estimação, não têm feito mais nada senão colecionar títulos. Há mesmo quem já tenha a tríplice distinção: ostentam dois tomates bem vermelhos no nariz,  uma beringela pendurada nas traseiras e um palito de pau-brasil na boca. E pavoneiam-se na rua altivos, cheios de soberba, exibindo, vaidosamente, o exuberante brilho dos seus penduricalhos.

— Pra qu'é que serve dizer assim “brêtebe-ranhotek-fanhok-chok-chok”? — perguntou, um destes dias, um inocente ao papá.
— Pra poder andar com estes tomates no nariz. Atão não vês?! — respondeu o adulto.
— E pra  qu'é que servem os tomates no nariz? — continuou a criança.
— Servem pra mostrar… pra provar… pra… Tu inda és muito tenro pra entenderes. Um dia, quando fores um Ranhok adulto, compreenderás. E vais querer tê-los no sítio: tomates no nariz, beringelas no rabo e palitos nos dentes. Vais ser o orgulho do teu papá.

Quarta-feira, 14 de Março de 2012

"A paz dos anestesiados" - Crónica de Santana Castilho

Tem toda a razão Santana Castilho, quando fala de anestesia na classe docente. De facto, a rendição é geral. E os poucos que não se entregaram estão a ser, paulatinamente, abandonados pelos colegas, quando não são mesmo apontados como desestabilizadores ou como maledicentes profissionais. Só falta mesmo serem declarados "traidores", como acontece, por via de regra, nos movimentos contrarrevolucionários.


A paz dos anestesiados

À paz dos cemitérios que reina na Educação serve bem a paz dos anestesiados que domina os professores. Dois acontecimentos permitem glosar o tema e extrapolá-lo para a situação do país. Refiro-me à alteração do normativo que regula o concurso dos professores e à situação da Parque Escolar. Comecemos pelo primeiro caso. Nuno Crato exultou com o acordo a que chegou com seis sindicatos. Os sindicalistas orgulharam-se com as alterações que conseguiram entre a primeira proposta do ministério e o texto final. De comum têm serem parceiros de uma comédia de disfarces e de um jogo de ilusões. Ouvi-los reconduz-nos às longas noites eleitorais, em que todos ganham. Crato não resolveu um único problema dos que se arrastam há décadas. Dirigentes de sindicatos, onde há mais chefes que índios, esqueceram-se que o exercício não era comparar a primeira proposta do ministério com o texto final. Seria comparar a lei vigente com a que vai ser aprovada. Se o tivessem feito, não assinariam. Pela simples razão que, salvo um ou outro detalhe menor, os professores perdem em todos os pontos do acordo. Particularizo com os dois exemplos mais relevantes, que uma análise total não cabe no espaço exíguo desta crónica:

1. Há 37 anos que não se resolve o óbvio: a qualidade do desempenho dos professores depende, antes de mais, da existência em cada escola de um corpo docente estável. Já houve tempo em que esse desiderato custava dinheiro. Hoje conseguia-se a custo zero. É inaceitável que Crato chame justo a um diploma donde está ausente qualquer sinal de vinculação de docentes. É incompreensível que alguns sindicatos cantem vitória perante um acordo que aumenta a precariedade dos seus filiados, por poucos que sejam. Se os contabilistas de serviço quiserem que prove o que afirmo, é só escolherem o local, dia e hora.

2. É imoral que o ministro fale de equidade ao permitir que docentes do ensino privado concorram na primeira prioridade. O que fez foi beneficiar os empresários dos colégios privados, a braços com a retracção de alunos. O reajustamento no ensino privado será feito à custa dos professores contratados do ensino público: enquanto os colégios privados se vêem livres dos excedentes com mais tempo de serviço e por isso mais caros, milhares de docentes contratados do ensino público serão para sempre ultrapassados pelos colegas do privado. Equidade seria integrar nos quadros os docentes do público, precários há anos, como, aliás, PSD e CDS defendiam quando eram oposição e como acontece no ensino privado, por imposição do Estado.

O diploma em apreço é uma confusa teia de mais de 50 artigos, com que concordam burocratas deslumbrados. O que os separa da naftalina dos mais retrógrados é só o cheiro. De um lado, sindicatos com interesses particulares e bem diferentes, sendo que a maioria não tem representatividade. Do outro, um ministro de ego afectado pela elefantíase mediática, que vive da benevolência dos comentadores políticos e da exploração oportunística da fragilidade alheia. Numa situação de penúria orçamental como a presente, com uma revisão curricular que mais não pretendeu que reduzir custos e diminuir a contratação de professores, este epílogo não surpreende. É, tão-só, mais uma concertação social enganosa, com um chorrilho de razões sem nenhuma razão.

Passemos à Parque Escolar. Em tempos que já esqueceu, Passos Coelho incomodou muitos políticos, Cavaco Silva incluído, ao defender a necessidade de responsabilizar os políticos civil e criminalmente. Até Louçã falou do facto como mera fantasia. Todos se esqueceram que Passos Coelho apenas clamava pela aplicação da velha Lei 34, de 1987, sucessivamente alterada em 2001, 2008 e 2010 pelas leis 108, 30 e 41, respectivamente. Passos Coelho, prudentemente, esqueceu-se desse tempo. No programa eleitoral, que a seu pedido escrevi e ele aceitou, primeiro, para renegar, depois, estava sumariada a história da Parque Escolar e traçado o seu futuro. Para quem o tenha lido, mais o que nesta coluna assinei sobre a Parque Escolar, em 26 de Fevereiro de 2007 (sim, 2007), primeiro, e em 17 de Fevereiro de 2010, depois, as conclusões do relatório que veio a público são meras redundâncias. O que é novo é que este Governo pactuou oito meses com o esquema. O que agora diz da Parque Escolar, diz dele próprio. Porque a Parque Escolar é uma empresa com um só dono, o Estado.

Estarão os portugueses anestesiados como os professores? Há para já uma consciência colectiva sobre a gravidade do estado de emergência financeira que o país vive, que dilata generosamente o limite do tolerável. Mas os sinais crescentes de substituição da política pela “pulhítica” poderão precipitar o despertar. A reforma administrativa, o poço sem fundo do BPN, as “adaptações” da TAP e da CGD, a fé para combater a seca, o QREN, as intocáveis parcerias público-privadas e a “vendetta” do presidente são apenas sinais de que, de súbito, pode aumentar a curiosidade pública sobre o que se passa na Islândia.

In Público, 14/03/12

Terça-feira, 13 de Março de 2012

A Mocidade

Hoje, apeteceu-me fazer uma singela homenagem ao nosso ministro Relvas, que, após mui dura e denodada luta, conseguiu licenciar-se em plena ternura dos quarenta (46 primaveras, para ser mais rigoroso), seguindo as pisadas do nosso Primeiro (segundo dele), que já havia atingido semelhante patamar seis anos antes, quando completava as suas lindas trinta e sete páscoas. Ambos são a Mocidade (com maiúscula) em pessoa.

A Mocidade

Nasceu na foz do Tejo
Na capital lusitana
E já trazia o bafejo
Da choldra palaciana

Ó Relvas, ó Relvas
Avental à vista.
És salazarista
De amor e saudade
Transportas no peito
A Mocidade

Na moça mocidade
Quase se fez angolano
Mas para nossa maldade
Continuou lusitano

Ó Relvas, ó Relvas
Avental à vista.
És salazarista
De amor e saudade
Transportas no peito
A Mocidade

Nasceu na foz do Tejo
Na capital lusitana
Mas já é percevejo
De uma colónia germana

Ó Relvas, ó Relvas
Avental à vista.
És salazarista
De amor e saudade
Transportas no peito
A Mocidade
A Mocidade
A Mocidade
(…)

Sábado, 10 de Março de 2012

Quadro Desolador


Farol de Los Roques -Venezuela
(imagem retirada daqui)

O ensino passou a um estado de reforma permanente, compulsiva e viciosa. Uns fazem questão de acompanhar todos os ditames da moda pedagógica, seja ela de outono-inverno, seja de primavera-verão (não ganham para papel); outros já deixaram de acompanhar tantas mudanças (à espera que este temporal, um dia, acabe; ou à espera da sua própria reforma); outros estão num tal estado de ansiedade, que já nem aplicam a lei que chega, pois sabem muito bem que a próxima está para chegar; outros ainda… já andam completamente à deriva, ao sabor das ondas, de ventos e marés. É um quadro desolador!

Não sei se já deixei de acreditar nos professores e não tenho consciência disso, ou se apenas estou no bom caminho descendente para que isso venha a acontecer rapidamente. Não se trata dos professores enquanto administradores de conhecimentos, enquanto cumpridores do seu serviço docente e não-docente. Trata-se de uma descrença relativamente à coerência dos professores, à sua firmeza de caráter, à sua verticalidade, à sua intransigência em questões éticas, ao saberem assumir-se como referências de atitudes e valores, sobretudo neste tempo em que tantos e tantos jovens também andam completamente à deriva na vida, na família e na escola. Enfim, trata-se de uma profunda descrença relativamente à autoridade intrínseca dos professores, aquela que nenhuma lei pode instituir nem destituir. Os alunos são barcos no mar, na tempestade, no nevoeiro ou na noite, e muitos professores são faróis deambulantes, frouxos ou apagados. É um quadro desolador!

Fico possesso (às vezes apetece-me mesmo esbofetear) quando os professores dizem A aqui e dizem B ali; quando juram A aqui e fazem B ali; quando chegam arrasados, desesperados, desmoralizados aqui, por causa dos… (e agora imaginem um chorrilho de maus atributos a verter sobre os alunos), e ali já se mostram primaveris, compreensivíssimos, tolerantíssimos, permissivíssimos, íssimos, íssimos... deixando perfeitamente isolados aqueles que se sabem manter no seu lugar (que passam, implicitamente, ao papel de réus); quando os professores não são verdadeiros faróis, mas outra coisa que não vou nomear. É um quadro desolador!

Não me admira nada que os alunos andem à deriva!

Quarta-feira, 7 de Março de 2012

Uma questão de caráter

A Gamela



Uma porca muito gorda
Comia numa gamela
Tinha leitões e leitoas
Numa vara à volta dela
A lavadura era boa
Atestada até à borda
Por isso todos fuçavam
Manducavam e se fartavam
Daquela porcina açorda

A porca de vez em quando
Cumprindo o dever de mãe
Roncava em tom de pergunta
Num ronco meigo e brando
Se estava tudo bem
E a porcalhada junta
Roncava em coro também
E logo todos em faina
Voltavam à comezaina

Tudo o que a porca fazia
Os cochinos repetiam
Em perfeita sintonia
Ela roncava e comia
Eles roncavam e comiam
Ela guinchava e grunhia
Eles guinchavam e grunhiam
Com redobrada energia
A corte era sinfonia

No final da paparoca
Gamela toda lambida
Iam esgodar-se na lama
Ela ficava estendida
Redonda e badalhoca
E eles cheios de vida
Cada qual na sua mama
Chuchavam tão afanados
Que ficavam lambuzados

E todos estavam contentes
Na maior das imundices
Ou com farelo nos dentes
Ou fazendo chafurdices
O resto eram tolices

Luís Costa

Sexta-feira, 2 de Março de 2012

Quinta-feira, 1 de Março de 2012

Cratobilhete



Ex. mo Senhor Ministro da Educação

Levantei-me hoje com pachorra para lhe enviar este bilhete a pedir-lhe para não dar qualquer relevo à petição que corre aqui nos espúrios corredores da Internet, com o objetivo de obter equiparação do professor a autoridade pública. Mas que anacronismo estúpido, Senhor Ministro!

Seria copiosamente risível — para não dizer bestialmente ridículo —, depois de tanta malha, de tanto rebaixamento, de tanto empobrecimento, de tanta descredibilização, de tanta descaracterização, de tanta alienação… reconhecer, AGORA, o estatuto de autoridade pública aos professores. Seria — permita-me este truísmo comparativo — quase como atribuir ao Costa Concórdia o título de “Papa Oceanos”. Não embarque, Senhor Ministro, em cruzeiros de circunstância, nem se deixe ir nesta onda populista e demagógica. Vá por mim.

Em alternativa ao impertinente estatuto que alguns pseudointelectuais energúmenos querem ver aprovado, eu sugiro-lhe algo muito mais profícuo, mais elevatório e mais “troikano”. Os professores — essa escumalha afunda-estados — já estão por tudo: se os mandarem passar mais alguns alunos, eles (“eles”) passam a escola inteira; se os mandarem sarrabiscar papéis, eles sarrabiscam todo o agrupamento; se os mandarem fazer planos, relatórios, inquéritos… eles entopem a ETAR; se os mandarem estar calados, eles morrem de silêncio; se os mandarem baixar, eles põem-se de cócoras e mais alguma coisa; se os mandarem… sei lá, eles… sei lá! Então é neste estado que vamos agora pôr tais desgraçados num pedestal autoritário? Nem pensar!

Senhor Ministro, em vez desta coisa inominável e deveras extemporânea — para não dizer belamente abjeta — queira ter a coragem e o patriotismo de pôr estes preguiçosos de carreira a dar vinte e seis horas de aulas efetivas (depois, só faltarão nove). Eles estão de tal modo que, por se verem livres daquelas horas de encher pneus (assoprar derreado faz muito mal à coluna), receberiam uma tal medida com vivas, foguetes e arraial. Por outro lado, o Senhor Ministro ver-se-ia livre de mais uns quantos, o Senhor Gaspar esfregaria as mãos de contente, e o Senhor Relvas faria a tal saudação. Que tal, hein?!

Deste seu serviçal,

Luís Costa (Discórdia)

Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Crónica de Santana Castilho


Passos em falso


1. Pareceria elementar que alunos, famílias e professores pudessem confiar no Estado quanto às regras por que se pautam. Parece de senso mínimo que elas não mudem a meio do ano. Mas mudam. E não é de agora. O que é de agora é a incoerência de Nuno Crato, que faz hoje o que, ontem, impiedosamente criticava. Poderemos teorizar sobre as vantagens e as desvantagens de permitir aos alunos que escolham entre apresentar-se ou não à primeira fase dos exames nacionais. Podemos admitir que apenas os casos excepcionais recorram à segunda. Mas o que não podemos aceitar é que se decida sobre isto a meio do ano e, sobretudo, não se preveja alternativa para um impedimento forte, que escape à vontade do aluno e tenha por consequência a perda de um ano. Tal aberração está contida no despacho nº 1942, de 10 de Fevereiro, da secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário. Para que fique mais fácil de entender: um cidadão português, aluno de 18, que não entrou em medicina no ano passado, por insuficiência de média, num país que contrata médicos de 10, estrangeiros, e que tenha passado este ano a estudar para fazer melhoria de nota, se tiver o azar de ser atropelado a caminho do exame da primeira fase, ao qual tem obrigatoriamente que se apresentar, esse cidadão, caros leitores, dizia eu, perde outro ano e volta no próximo. Se não for piegas, ou não emigrar.

2. Na proposta de novas regras para a contratação de docentes, o Governo invoca o “princípio da igualdade” para permitir que os professores das escolas privadas com contrato de associação possam ter acesso à primeira prioridade do respectivo concurso. E sustenta a proposta com a alegação de que aqueles professores prestam serviço público idêntico ao que é prestado pelos professores das escolas públicas. Para que a iniciativa não exalasse cinismo e desonestidade, o Governo deveria tornar definitivos os contratos precários dos milhares de docentes da escola pública, com três anos de contratação. Como acontece aos docentes das escolas privadas. Por uma questão elementar da invocada igualdade.

3. Se os verdadeiros crimes pedagógicos que se têm cometido em Portugal tivessem ocorrido na Islândia, talvez algo tivesse acontecido, responsabilizando civilmente os autores, como Passos Coelho corajosamente defendia, quando era oposição. Uma primeira consequência, mensurável, do disparate dos megas agrupamentos, está aí: o calote feito para transportar crianças das suas aldeias para os depósitos desumanos das cidades cifra-se em 60 milhões de euros e ameaça paralisar o sistema. O país ficaria atónito se mais custos fossem quantificados.

4. O Governo aprovou um tal “Programa de Relançamento do Serviço Público de Emprego”, que prevê pagar a agências que coloquem desempregados. A ideia é que o Instituto de Emprego e Formação Profissional pague ao sector privado para que este faça o que compete àquele. Por outro lado, anuncia-se nova vaga de formação, com cursos de 50 a 300 horas. Era tempo de o Governo aceitar que só há emprego com crescimento económico e que o desemprego não é consequência de falta de formação. Tanto mais que vem aconselhando os mais qualificados a emigrarem e nada fez para cumprir a recomendação da troika no que toca ao ensino profissional. Basta de incoerência e de dinheiro deitado à rua ou investido no progresso de países terceiros.

5. Francisco José Viegas, o escritor e jornalista, faria e diria o que Francisco José Viegas, o secretário de Estado da Cultura, tem feito e dito? Diria ter chegado a “bom porto”, no negócio da venda da Tobis, quando, como candidamente confessou, apenas sabe que a empresa compradora é de “capitais sobretudo angolanos”? O Estado português já vende sem saber a quem? Se, por mera hipótese, um qualquer cartel da droga, a coberto de nome germânico, oferecer bom dinheiro pela TAP, o Estado vende, limitando-se a contar as notas?

6. Os sacrifícios colossais impostos aos portugueses que menos podem reclamam tolerância zero quanto à legitimidade moral das decisões políticas. Infelizmente, essas decisões são cada vez mais opacas e iníquas. O parlamento acaba de inviabilizar uma nova comissão de inquérito ao polvo BPN. Compreendemos porquê. Porque, com raras excepções, assume-se sempre como correia de transmissão da maioria que governa. Porque, neste caso, Passos tende para Sócrates e Gaspar converge com Teixeira dos Santos. Como é possível que uma fraude tão grande só conheça um rosto indiciado, que não condenado? Como é possível que, volvidos 33 meses, não seja pública a trama urdida e não sejam conhecidos os nomes dos que a conceberam, que serão muitos mais que o solitário Oliveira e Costa? À opacidade das condições em que o BPN foi resgatado junta-se agora a falta de transparência das condições em que foi vendido por tuta e meia. Passos como Sócrates, Gaspar como Teixeira dos Santos, actuam como se fossem donos do dinheiro que confiscaram aos contribuintes e acham que não têm que prestar contas públicas sobre o BPN. Por que razão não foi nacionalizada a Sociedade Lusa de Negócios e os seus activos? Qual é, afinal, a quantia total injectada no BPN? Qual era, é, o valor do património imobiliário do BPN?

7. Miguel Relvas decidiu imortalizar o programa de Governo numa edição de luxo para governantes. Foram 100 exemplares a 120 euros cada. No mesmo dia em que a decisão política, imoral, era conhecida, Miguel Relvas exortava na televisão, pedagogicamente, as autarquias a acabarem com as obras de fachada. Aparentemente sem se dar conta que há uma diferença entre um ministro de Estado e um grilo falante.

in Público, 29/02/2012

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

O Plano de Matateu



A Quinta do Soslaio mais parecia um testemunho de estafeta, tal era o seu afã em andar de mão em mão. Depois da D. Gertrudes e da menina Patareca — única herdeira de D. Caramela, que, por ser viúva, velha e perra como uma cancela de lameiro, endossara imediatamente a herança da irmã à sua filha coquete e oca de nascença —, a herdade tocou em sorte a um mancebo da Capital, o Matateu, parente muito afastado desta linhagem de fazendeiros. Era afastado, mas era parente, e por isso recebeu e honrou o testemunho. Nem Rossios, nem Chiados nem Pombais lhe haviam conspurcado o que de mais íntimo tinha nos genes: a vocação para criar e gerir galinheiros. Logo que pôde, o moço apresentou-se na herdade.
Inteligente e espigadote como qualquer alfacinha de gema, o jovem optou por não entrar de chancas na quinta, sobretudo na capoeira, onde, segundo lhe constara, as coisas não eram propriamente canja de galinha, embora também não constasse que se cantava de galo. Ainda assim, à cautela, entrou maneirinho, para poder tirar as medidas ao tesouro. E assim foi. Nos primeiros dias, o marialva só andou por ali, sempre de lenço perfumado a entupir-lhe a narigana corvina, a menar, a topar, a catar, a contar, a calcular, a congeminar, a estratagemar… Finalmente, iria poder tirar partido de tantos anos de experiência nos Restauradores a contar os carros que passavam! Enquanto isso, a galinhada foi relaxando, baixando a guarda, depenicando no chão com bico de precisão microscópica (tal era a fartura), pondo ovos escanzelados (com casca ou sem ela), vivendo na pior das imundices, na maior das desordens, tudo ao molho…  
— Estou feito! — exclamou ele um dia, ao morrer da tarde, afastando, com um safanão inteligente, os papéis quadriculados, esquartejados de sarrabiscos. — As galinhas estão completamente alienadas, já estão por tudo, já nem sabem a diferença entre pôr e defecar! Eu não tenho tosto, e a quinta está pior do que as calças coçadas de um almocreve! Por Pitágoras, como me safo disto?!
E lá voltou o rapaz da cidade aos mais recônditos becos da meditação metódica. Ser exigente e produzir ovadas de qualidade não era possível, pois nem sequer tinha cheta para limpezas, quanto mais para milho e rações! Estava fora de questão! O que havia de fazer? No imediato, por muito que lhe custasse, os ovos teriam de ser todos de tamanho S, mas sempre lhes poderia dar uma apresentação mais catita, talvez com um selo alaranjado de qualidade. Afinal, o tamanho não era o mais importante! Bem, no tocante aos galináceos, sempre poderia dar ainda mais expressão ao lema da sua dinastia — mais com menos — tão bem encarnado por D. Gertrudes e menina Patareca: juntar todas as pitas e seus pitos na ala direita do galinheiro, em vários andares… Depois, podia alugar a parte sobrante e aplicar os rendimentos em… em… estudos, inquéritos, estatística cosmética, manicura, pedicuro... Sim, sim!
Bêbedo de euforia, o Matateu deu volta à quinta a pular de contente, batendo com os calcanhares nas nádegas das calças de ganga americana. Eureka! Encomendara uma saída à inteligência, e recebera dela, sem cobrança nem fiança, em correio azul, registado e com aviso de receção, tudo quanto desejara, e com juros: iria vender a quinta, em leilão, nem que fosse a chineses. Com boas estatísticas, com boas fotos, com umas quantas poses, um pouco de Photoshop aqui, uma musiquita ali, como pechincha de pegar ou largar… alguém haveria de ficar de olhos em bico e pegar-lhe!
Dias depois, já o Sol se deitava nos peitos da colina, espalhando sombras e penumbras por todo o lado, chegou à Quinta do Soslaio um homem de gabardina cinzenta e óculos escuros. Vinha às arrecuas, para garantir total ausência de subjetividade e a exigida imparcialidade da avaliação que lhe fora encomendada por um amigo de um conhecido de um compadre do primo do Matateu. Encostou-se à janela do galinheiro e, através da rede, sem olhar a pita Capataza, disse-lhe:
— Venho fazer um inquérito de qualidade, produtividade, limpeza, bem-estar, realização galinhal… Enfim, estou aqui para saber tudo, tudo, tudo e tudo, ouviu?
— Cóoooooo! — anuiu a ave de chão.
— Então é assim: se as senhoras pitas acham que aqui está tudo nos conformes (ovos, ninho, palha, limpeza e tal e tal…) diga-lhes que se juntem no comedouro, que acaba de ser atestado com milho pipoqueiro; as galinhas que acham que as coisas só estão assim-assim, ou seja, nem bem nem mal, antes pelo contrário, que se juntem todas no cagaçal, como puderem; as que acham que isto por aqui vai de mal a pior, então que se amouxem junto à porta do matadouro. Entendeu?
— Cóoooooo! — respondeu a Capataza, olhando fixamente as costas do visitante.
 Nos instantes seguintes, foram ouvidos vários cacarejos da Capataza, seguidos de um curtíssimo silêncio sepulcral, que pariu o mais confuso, o mais aflito e o mais seco dos ruídos. O galinheiro parecia tomado por um ciclone, que pariu uma trovoada, que pariu uma intensa granizada. Eram as galinhas a bicar freneticamente os comedouros de pinho. 

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Ramuno Marato




And the Oscar goes to… 


Pela primeira vez na história do cinema, um ator português foi nomeado para os Óscares. O feliz contemplado  foi este giraço versátil e multifacetado, na categoria de melhor ator principário. 

O Dardomeu já está a torcer!

Oxigenemos as Escolas


Em muitas escolas, os diretores, envergando confortável o fato de caciques de um poder determinado a reduzir a Escola Pública a um serviço mínimo instrutivo, têm sido os garantes de todos os desmandos governamentais. No seu íntimo, já não se veem como professores.

Usando os poderes que a Lei lhes confere — sobretudo a varinha de condão chamada Avaliação Docente —, mas também aqueles que o medo instalado vai copiosamente outorgando, muitos diretores têm transformado “as suas escolas” em microcosmos de medo, de censura, de falta de liberdade, enfim, estufas de “totalitarismo democrático”. Paralelamente, essas escolas vão consolidando uma natureza bífida: inóspitas e castradoras na realidade quotidiana; integradoras, motivadoras, promotoras de sucesso e de realização pessoal e profissional em tudo o que é papel (pautas, relatórios, projetos, estatísticas, avaliações diversas…). Enfim, a hipocrisia tem-se instalado como paradigma curricular. É uma escola barata que dá para aviar as necessidades mais imediatas e mais básicas do sistema.

Não me admira nada que o Governo esteja a tentar, por todos os meios, evitar que os seus caciques sejam removidos deste quadro; não me admira nada que o Governo que tem os propósitos acima descritos queira reforçar ainda mais o poder das autarquias no Conselho Geral, dando a este órgão o poder de avaliar (controlar) o Diretor; não me admira nada que o Governo não queira ver gente “independente” e identificada com uma certa verticalidade docente à frente das escolas; o Governo sabe que é aí que está a pedra de toque.

É preciso que os sindicatos se mantenham intransigentes nesta matéria. Nas escolas onde há direções que terminam mandatos antes do final de 2012/2013, é fundamental que o processo de candidaturas prossiga na sua normalidade. É urgente, nessas escolas, que o corpo docente se una, sem medos nem tabus, e crie sinergias em torno de pessoas capazes de abrir janelas e deixar entrar oxigénio.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Apeteceu-me!


Ele há coincidências que um homem… No dia 3 de fevereiro, escrevi no Danação uma “Carta Aberta aos Meus Colegas”; quatro dias depois, publiquei uma crónica intitulada “Nababos”, sobre o mesmo tema, mas em sentido frontalmente denotativo, apontando aos professores o caminho da substituição dos diretores prepotentes por outros mais democratas, mais sintonizados com as preocupações e aspirações dos professores; três dias depois, o Governo, sem nada saber do que este célebre anónimo dissera, decidiu tirar o revólver do coldre e… vai daí… dar um tiro em cheio na minha ideia escarafunchosa. É preciso ter azar!
Na proposta de “Alteração ao Regime de Autonomia, Administração e Gestão dos Estabelecimentos Públicos da Educação Pré-escolar e dos Ensinos Básico e Secundário”, mais concretamente no sexto artigo do quinto capítulo (página 14), o Ministério da Educação diz o seguinte:
“1 – Até final do ano escolar de 2012/2013, sempre que numa escola não agrupada se verifique a cessação do mandato do diretor, o serviço territorialmente competente do Ministério da Educação e Ciência nomeia uma comissão administrativa provisória, que assegurará transitoriamente as funções de gestão e administração da escola até que seja proferida decisão sobre a sua agregação.
Traduzindo para bom português, o que o nosso ministro quer dizer é basicamente o seguinte:
Nós andamos a congeminar certas coisas que não vos interessam e, enquanto não tivermos isto no ponto, os meninos não podem bulir no que está quieto e bem acomodado!
Como, felizmente, a vida é feita de venturosas coincidências, acontece que faz por estes dias quatro anos que eu decidi cavar esta trincheira. Assim sendo, resolvi voltar, apesar de todos os apesares. Nem eu mesmo compreendi realmente a razão por que o faço. Apeteceu-me! Apeteceu-me o lugar, apeteceu-me o estilo, apeteceu-me a armadura, apeteceram-me as recordações, apeteceu-me o odor do Dardomeu… Não acham que o Dardomeu tem um odor especial?!
Pois… apeteceu-me tudo isto!

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Horas Derradeiras


Não seria muito cordial pôr termo a esta caminhada no dia de Natal. Por isso, amanhã, quando se esgotarem as 24 horas do dia, este blogue será encerrado. A todos aqueles que o seguiram, a todos aqueles que o visitaram e a todos aqueles que o acompanharam de perto e com regularidade, os meus mais íntimos agradecimentos.

Já nem sequer me apetece dizer mais nada!

Luís Costa

Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

AOS MESTRES DO MEU PAÍS


Estou prestes a encerrar o Dardomeu, atalaia onde estive dois anos, contados em dias, em incessante vigília, atento às palpitações do vosso peito. Foi nele, aliás, que agitei as ondas e naveguei como “emonauta”, libertino, picaresco e subversor. Mas também foi dessa ondulação que, insaciavelmente, me alimentei. E fi-lo por amor, só por amor!

Hoje, porém, após alguns vertiginosos rodopios do carrossel do tempo, da vidraça do meu farol já não diviso o vosso alto-mar irrequieto de outrora. No horizonte crepuscular, estende-se um imenso oceano pacífico onde se miram as cores arroxeadas de um estranho céu sonolento. Sei que, sob essas águas cálidas e quietas, ainda moram magníficos bancos de coral, onde pululam fetais esperanças; sei que, no ventre dessa letargia feita de cansaço, mora também o gérmen de um novo sopro de vida, que virá desassossegar a superfície. No entanto, enquanto essa gestação fermenta, é mais sensato recolher ao nicho e aninhar-me, recobrando ventos que apressem a madrugada.

Estarei na vossa saudade, como incansável andarilho, devolvendo ao céu, uma a uma, todas as estrelas cadentes. E será na vossa saudade que se inflamarão, de novo, as acendalhas da crença. Então serei Fénix, Neptuno e marinheiro quinhentista. Serei, de novo, “emonauta”, libertino, picaresco e subversor. E irei convosco resgatar do amanhã o nosso sonho, esse graal que, religiosamente, demando.

Luís Costa

OS EMPOSSADOS


"Sacre de Napoléon" - Jacques Louis David

A pedido de muitas famílias que não puderam estar presentes... o texto que retirou o Dardomeu do anonimato. Foi publicado no dia 9 de Maio de 2008, mas está prenhe de actualidade.

Muito antes desta data, antes mesmo de pensar na criação de um blogue, já eu tinha inflamado, na minha escola, os ânimos da revolta contra o sistema de avaliação e contra o anunciado regime de gestão. Já tinha também, numa página inteira de um jornal local, de grande tiragem, exigido a demissão de Lurdes Rodrigues. Nessa altura, ainda nenhuma escola de Braga se tinha erguido do silêncio. Sosseguem, pois, aqueles que receiam que eu meta a cauda entre as pernas: esse lugar já está bem preenchido. Aos restantes, àqueles que gostariam de encontrar no meu medo a paz da sua alma, os meus sentidos pêsames! ESTAREI ONDE E QUANDO FOR PRECISO.


OS EMPOSSADOS
“Se queres conhecer o vilão, põe-lhe um volante na mão!”
Alguns presidentes de conselho executivo — agora nomeados “directores” pela varinha de condão — estão a viver autênticos dias de plenitude profissional nunca antes experimentada. Pelos indícios externos, parece um estado de alma semelhante ao dos adolescentes que acabam de descobrir os segredos do sexo: o lânguido prazer do exercício constante da autoridade “patronal” está a manifestar-se num “quero, posso e desmando” que tem tanto de provinciano como de ridículo: parecem maestros de banda filarmónica, caminhando à frente da trupe, enquanto gesticulam abundantemente, de peito emproado como generais. Depois do 25 de Abril mais triste dos últimos trinta e quatro anos e do 1º de Maio mais sorumbático — e até com o seu quê de “retro”— parece que voltámos ao tempo do medo de falar e dos laconismos cínicos: “porque sim”; “porque eu decidi”; “porque tem de ser”; “estou apenas a cumprir ordens”. Mas… «não nos interroguemos sobre os nossos superiores, porque eles têm preocupações que nós nunca entenderemos», como já se dizia no tempo da Senhora Dona Ditadura.
Alguns empossados, que nós em tempos elegemos, mas que hoje — sabendo o que sabemos — não elegeríamos de certeza, estão agora a saborear os aperitivos de um absolutismo que promete, um autoritarismo latente, que esperava apenas pela primeira oportunidade para desabrochar e eclodir. E aí está ele a rebentar, com este “Outono Socratista”. Como aprendizes de feiticeiro com alguns truques de magia na varinha, eles estão a repetir os primeiros ensaios, testando a reacção dos seus subordinados, sentindo o prazer da obediência, a satisfação que pode proporcionar uma certa dose de arbitrariedade, o deleite com o medo que se instala. E medo é coisa que não falta aos professores deste país, acossados por todos os lados: toda uma sociedade, com a ministra da Educação e seus acólitos à cabeça, que demite os alunos e respectivos encarregados de educação das suas responsabilidades, atirando todo o ónus do nosso atraso sobre os professores, estigmatizando-os com o rótulo da preguiça e da incompetência. E medo é o que todos os docentes devem sentir com o sistema de avaliação, imposto com o único propósito de poupar dinheiro ao Estado: à custa daqueles que passarão sempre, nunca podendo passar da escolaridade mínima; à custa daqueles que passarão sempre os alunos, nunca atingindo o topo da carreira, nunca sendo respeitados — nem pela tutela, nem pelos alunos, que acabarão por culpá-los pelo seu fracasso, nem por esta casta de “colaboracionistas” , que se colaram como lapas a esta ministra de Educação, coveira do ensino público, apoiando todas as suas reformas, mesmo aquelas que mais atentam contra a dignidade da classe docente. E alguns ousaram até ir muito mais além nesta devassa que é o sistema de avaliação: impondo prazos; fazendo aprovar documentos sem distribuição prévia para apreciação e eventuais correcções ou sugestões; ignorando lamentos e críticas dos seus subordinados (antigos colegas), a todos respondendo com um “já está aprovado e não se fala mais no assunto”; criando grelhas de observação e de registo de informação dignas dos “melhores” serviços secretos e a exigirem departamentos de contabilidade específicos — com T.O.C.’s e R.O.C.’s. Só não nos pedem a marca e o tamanho da roupa interior, pelo menos por enquanto! Enfim, estão a fazer o que fizeram alguns timorenses, quando foram invadidos pela Indonésia, o que fizeram alguns franceses quando foram ocupados pelas tropas nazis e o que fazem sempre todos os que têm roupas que podem ser vestidas do avesso: uns sentiram-se imediatamente indonésios, outros sentiram-se imediatamente alemães e outros sentiram-se imediatamente patrões dos colegas, determinados a extorquirem-lhes os “preciosos” números do “sucesso”. Embora eleitos pelos pares, já não os representam e nunca mais os vão representar. Transformaram-se na voz e nas garras deste regime “travesti”, de um diáfano e amaricado autoritarismo democrático, todo ele muito engomado, muito vincado e muito relativo, como convém.
Vislumbro apenas um pequeno senão neste “novo alinhamento”: os professores não se espremem como laranjas e a educação não acontece quando os docentes passam os seus dias apenas na esperança de acordarem deste pesadelo. Actualmente, há cerca de 45 mil professores nos “corredores da morte”, à espera de uma fatídica entrada no ensino, e 140 mil a viverem os seus dias «na esperança de um só dia»: o da saída, como quem espera, numa prisão, pelo fim da pena, arquitectando diariamente uma possibilidade de evasão, ainda que remota ou apenas para manter alguma sanidade mental. Nestas condições, a Escola tornar-se-á o inferno de uns e o purgatório de outros: purgatório de carências, de frustrações, de insatisfação e infelicidade social, de uma revolta crescente. E o futuro julgará aqueles que agora, com conhecimento do terreno, não contestam, não se indignam e até colaboram, como cangalheiros, neste funeral de direitos, liberdades e garantias. O futuro julgará aqueles que são agora “directores” apenas porque foram eleitos para representaram aqueles que agora tiranizam, escudando-se no dever de obediência e no receio da acção disciplinar. A demissão nem sempre é um sinal de fraqueza, de fuga às responsabilidades! Por vezes, pelo contrário, é manifestação evidente de verticalidade e de grandeza de carácter. Por vezes, quando se quer de verdade, quando se ama verdadeiramente o que se faz, é a última arma contra a prepotência e contra o aviltamento, a última bandeira da nossa dignidade.
Sei que muitos pensam como eu, mas quantos terão a coragem de se juntarem a este grito de indignação?
Luís Costa

...

"Le Rêve" - Éduard Detaille

O fim do Dardomeu não é o fim da minha luta e muito menos o fim do meu sonho. Esse é, aliás, o meu alimento e meu leito, o sol com que me deito e a luz da minha aurora. E do sonho... eu só quero o TODO. Só sei sonhar por inteiro!



Domingo, 25 de Abril de 2010

O ÚLTIMO POEMA


VAZIO

Chove
No meu pensamento
E uma dor
Incolor
Demora-me o peito
Refeito
De cimento

Lancinantes címbalos
Ecoam clamores de verdade
E fremem na memória

Melodias do meu sonho
Gelam na marmórea vivência
E uma visão de unidade
Em perfeita Lua
Enche de vazio
Doentio
A minha existência
Nua


Luís Costa

Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

O FIM DO DARDOMEU


No final deste mês, encerrarei este blogue. Uns dias antes, explicarei os motivos da minha decisão. Entretanto, podem os anónimos de serviço, os lacaios do poder, os troca-tintas, os que apenas querem ser coro trágico, os que lutam aqui e se curvam na escola, aqueles que — escondidos em alcunhas — ousaram chamar-me cobarde, mas nunca me chegaram aos calcanhares, os que estiveram para resistir, mas acabaram por entregar tudo a tempo e horas… Podem todos ficar a ruminar a minha decisão. Se o ensino ainda está como está, isso também se deve a todos os que “estiveram para”, os que “estiveram quase”. Na verdade, quase conseguimos! Eu fui até ao fim! NÃO FUI AVALIADO! CADA UM QUE SE JULGUE A SI MESMO! NÃO DEI PARA ESTE PEDITÓRIO NEM AJUDEI A INSTALAR ESTA MASSA AMORFA. PROVAVELMENTE, TEMOS O QUE MERECEMOS!

Luís Costa

Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

FAVOR


Favor é jogo que anda sem se ver,
é comida que rói, e não se sente;
é um contentamento indecente,
é cor que não combina sem feder.

É não querer mais que corromper;
é um andar falsário entre a gente;
é nunca contentar-se honestamente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso à irmandade;
é ungir que convence o devedor;
é ter com quem borrata, lealdade.

Mas quem acusar pode um corruptor,
dos tubarões humanos entidade,
se tão sectário assim é o favor?

Luís Costa


Poema-ladrão do soneto de Camões "Amor é fogo que arde sem se ver".

Quarta-feira, 14 de Abril de 2010

SANTANA CASTILHO, POIS CLARO!

Público (14-04-2010)

Mais uma crónica de Santana Castilho que dispensa adjectivação. Permitam-me, no entanto, que eleja a linguagem como o seu ácido mais corrosivo, sobretudo por estar perfeitamente adequada ao referente. Uma delícia!

Domingo, 11 de Abril de 2010

QUATROCENTOS CENTROS


Fico assustado, quando vejo certos ministros — que percebem tanto de ensino como eu de lagares de azeite — dizerem que a grande prioridade é isto ou aquilo, pois fico ciente de que o objecto da sua paixão vai ser esfrangalhado. São como elefantes apaixonados por lojas de cristais.

No final desta legislatura — se chegar ao fim, para mal dos nossos pecados — os estragos serão incontáveis e, muitos deles, completamente irreparáveis. Para além daqueles que nos levaram três vezes a Lisboa, surgirão outros, muitos outros, resultantes de tanto tijolo que se anda por aí a gastar em sprint e a granel, na construção de autênticas centrais nucleares: são os galinheiros atómicos que se estão a erguer nas escolas secundárias e os ditos “centros escolares”, que vampirizam as suas redondezas, secam raízes, desertificam as terras. E tudo se faz com a mesma desculpa de sempre: para haver melhores condições, melhor socialização, melhor aprendizagem... Tudo melhor, cada vez melhor, sempre melhor! Para quem?

Os nossos governantes, contra os mais básicos fundamentos democráticos, medem todo o país pela mesma rasa: têm uma cultura essencialmente urbana e demasiado focalizada no litoral; olham para o interior com desprezo e, quando tomam decisões, não equacionam qualquer espécie de discriminação positiva. O povo do interior é tratado como gentalha, portugueses de segunda, massa humana que deve fechar a porta de casa e fazer-se à vida, num local qualquer, desde que seja à beira-mar, que é mais barato. Para estes governantes míopes, fechar maternidades, centros de saúde, esquadras de polícia... é apenas uma questão de rácio, mais nada. Para estes governantes vesgos, abrir um centro escolar numa vila do interior, rodeada de montanhas pintalgadas de aldeias, que ficam isoladas quando neva, é o mesmo que abrir um centro escolar em Braga ou Coimbra. Para estes governantes zarolhos, o percurso de uma criança que tem de ir para o centro escolar, deixando a sua casa numa aldeia da serra, é idêntico ao percurso de outra criança que se desloca no interior de um aglomerado urbano, desde que a quilometragem seja a mesma. Para estes governantes empedernidos, tudo são números, números e mais números. Governam o país como capatazes de fábricas de pregos. Para quê, afinal?

Tenho pena daqueles que nem nos sonhos conseguem voar!


Luís Costa

Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

AQUI NINGUÉM "BULLYING"


Cá para mim, a raiz da violência escolar está só nos professores e nos auxiliares de acção educativa: passam o tempo em acções de deformação e, ao fim de contas, não possuem os requisitos necessários para motivar os alunos e manter a disciplina. Uns incompetentes!

Se fosse ministro da Educação resolveria esse grave flagelo num instante: contrataria apenas auxiliares como o senhor da esquerda e admitiria apenas professoras como a senhora da direita. De uma assentada, sem grande alarido, teria uma autêntica reforma curricular implementada. Com professoras assim, quem não gostaria do currículo? Quem não se sentiria motivado? Quem estaria desatento nas aulas? Quem precisaria de aulas de educação sexual? Quem quereria faltar ou chegar atrasado? Quem ousaria ser mal-educado? Com auxiliares de acção educativa assim, quem ousaria portar-se mal nos corredores? Quem ousaria praticar bullying? Quem ousaria discutir uma ordem? Quem precisaria de lições de formação cívica?

Com estes argumentos, a Escola Worry passaria rapidamente a Escola Happy, na boa!


Luís Costa

COMPRA "SUBMARÍNICA"

Sinceramente, não consigo compreender por que motivo andam por aí as más-línguas a criticar tanto a compra “submarínica” (bom neologismo, não acham?). Na verdade, acho que os dois mil milhões gastos, quer nos dois cetáceos quer nas contrapartidas, foram um inteligente investimento, que nos abre as portas do futuro, uma vez que o país se está a afundar a olhos vistos. Como facilmente se depreende, seria um autêntico esbanjamento gastar esse dinheiro público em habitação social, em centros de saúde, maternidades, escolas e melhores vias no interior desprezado do país... Para quê, se, um dia destes, tudo vai estar submerso? Só censuro o facto de os nossos governantes não se terem lembrado de encomendar também — a granel é mais barato — dez milhões de escafandros! Isso sim é que seria visionário!


Luís Costa

NOTÍCIAS DA PARVÓNIA


Como já devem ter reparado, não tenho escrito muito ultimamente. Na verdade, ando um pouco cansado e sem ideias, como a nossa querida ministra da Educação. Vai daí e pensei que o melhor seria tirar uns dias de repouso, para ver se m’alembrava de qualquer coisa que jeito tivesse. Eis senão quando... como não fui avaliado e, claro está, não mudei de escalão, tive de me contentar com este lugarejo que aqui vêem, com um ror d'água, areia qu’até chateia e uns arbustos a fazer mais ou menos sombra. Não é lá grande coisa — uma autêntica parvónia —, mas é sossegado e está a arejar-me as ideias, pois aí em Portugal anda tudo muito deprimente. Então na Educação... Esse modo de piloto automático...



Nesta imagem podem ver a choça onde durmo, escrevo uns poemas, penso na vida e... jogo às suecas. Uma pasmaceira, mas é para fazer o tal break que pretendia. Só não vos digo onde estou a padecer, pois, como é pertinho, ainda poderiam querer ter a maçada de aparecer por cá para me fazer companhia, por solidariedade, e eu não gostaria de ficar com esse peso na consciência. Vá lá, não se preocupem! Isto é um pouco austero, lá isso é, mas tem tudo o que me faz falta para a ascese monacal que o meu cérebro há muito me pedia.


Luís Costa

Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

À VOUS, ISABEL!

Sei que tenho sido um pouco mauzinho consigo, Dr.ª Isabel Alçada, mas, no fundo, bem no fundo, não é por mal: gosto muito do ensino e também gosto muito de si... como escritora!
Em jeito de reconciliação — nesta santa quadra — dedico-lhe esta canção, que o meu amigo Charles, tão expressivamente, aceitou cantar para si.

Mes amitiés!

Luís Costa

ISABEL MAÇADA



VEM AÍ O 3º PERÍODO. AQUI FICA UMA SUGESTÃO PEDAGÓGICA PARA MOTIVAR OS ALUNOS PARA OS LUSÍADAS E PARA O PLANO NACIONAL DE LEITURA.

Quinta-feira, 1 de Abril de 2010

ALBERTO SEM PAIO


Estava o Alberto ensinando
O seu esperto papagaio
Ali por perto rondando
Andava o gato esgrilando
O seu lanche de soslaio

Enquanto o homem palrava
Esmerando o seu ensaio
O felino avançava
Sobre a mesa e mordiscava
Toda a carne do seu aio

Sim meu Senhor Director
Dizia o bicho lacaio
Mas olhe que o estupor
Do seu gato abusador
Já lhe moquiu o seu paio

Ficou farto o felino
Amestrado o papagaio
E em total desatino
A estragar o figurino
O bom Alberto sem paio

Luís Costa

ISABEL ALÇADA BATE COM A PORTA

Saturada de tanta ingerência do Primeiro nas suas decisões, a ministra da Educação decidiu demitir-se do cargo que tão discretamente exercia.

Fonte fidedigna assegurou ao Dardomeu que Isabel Alçada terá tomado esta decisão radical após a leitura do romance Flor de Burel, que devorou de uma assentada. Tomada de nostalgia da boa escrita e de uma incontrolável vontade de fazer coisas úteis, telefonou, ao fim da tarde de ontem, ao Primeiro-ministro para lhe dar a boa-nova. Segundo a mesma fonte, José Sócrates, que se encontrava clandestinamente reunido com todos os restantes ministros, terá perguntado quem queria substituir a colega da Educação até à queda do Governo, que eles mesmos estavam a congeminar. Ao que parece, o ministro das Finanças terá sido o único a levantar o braço e todos os demais o terão aplaudido de pé, durante treze segundos... dois terceiros e... um quarto de águas para todos.


Luís Costa

Quarta-feira, 31 de Março de 2010

PALCOS DE TRAGÉDIA


Incansável, a voz de Santana Castilho continua a fremir sobre a mediocridade vigente. Já ninguém acredita nas boas intenções da actual equipa ministerial: são fiéis seguidores das políticas deletérias de Maria de Lurdes Rodrigues, de Valter Lemos e Jorge Pedreira. O que este Governo quer para a Escola pode servir muitas causas, mas não interessa aos jovens, não interessa aos pais, não interessa aos professores, não serve os superiores interesses do país.

Obrigado, professor Santana Castilho! Obrigado por continuar a ser a melhor antítese, a melhor alternativa e a mais firme oposição às cancerígenas políticas educativas deste Governo, que transformaram as escolas em palcos de tragédia.


Luís Costa