Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Crónica de Santana Castilho


Passos em falso


1. Pareceria elementar que alunos, famílias e professores pudessem confiar no Estado quanto às regras por que se pautam. Parece de senso mínimo que elas não mudem a meio do ano. Mas mudam. E não é de agora. O que é de agora é a incoerência de Nuno Crato, que faz hoje o que, ontem, impiedosamente criticava. Poderemos teorizar sobre as vantagens e as desvantagens de permitir aos alunos que escolham entre apresentar-se ou não à primeira fase dos exames nacionais. Podemos admitir que apenas os casos excepcionais recorram à segunda. Mas o que não podemos aceitar é que se decida sobre isto a meio do ano e, sobretudo, não se preveja alternativa para um impedimento forte, que escape à vontade do aluno e tenha por consequência a perda de um ano. Tal aberração está contida no despacho nº 1942, de 10 de Fevereiro, da secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário. Para que fique mais fácil de entender: um cidadão português, aluno de 18, que não entrou em medicina no ano passado, por insuficiência de média, num país que contrata médicos de 10, estrangeiros, e que tenha passado este ano a estudar para fazer melhoria de nota, se tiver o azar de ser atropelado a caminho do exame da primeira fase, ao qual tem obrigatoriamente que se apresentar, esse cidadão, caros leitores, dizia eu, perde outro ano e volta no próximo. Se não for piegas, ou não emigrar.

2. Na proposta de novas regras para a contratação de docentes, o Governo invoca o “princípio da igualdade” para permitir que os professores das escolas privadas com contrato de associação possam ter acesso à primeira prioridade do respectivo concurso. E sustenta a proposta com a alegação de que aqueles professores prestam serviço público idêntico ao que é prestado pelos professores das escolas públicas. Para que a iniciativa não exalasse cinismo e desonestidade, o Governo deveria tornar definitivos os contratos precários dos milhares de docentes da escola pública, com três anos de contratação. Como acontece aos docentes das escolas privadas. Por uma questão elementar da invocada igualdade.

3. Se os verdadeiros crimes pedagógicos que se têm cometido em Portugal tivessem ocorrido na Islândia, talvez algo tivesse acontecido, responsabilizando civilmente os autores, como Passos Coelho corajosamente defendia, quando era oposição. Uma primeira consequência, mensurável, do disparate dos megas agrupamentos, está aí: o calote feito para transportar crianças das suas aldeias para os depósitos desumanos das cidades cifra-se em 60 milhões de euros e ameaça paralisar o sistema. O país ficaria atónito se mais custos fossem quantificados.

4. O Governo aprovou um tal “Programa de Relançamento do Serviço Público de Emprego”, que prevê pagar a agências que coloquem desempregados. A ideia é que o Instituto de Emprego e Formação Profissional pague ao sector privado para que este faça o que compete àquele. Por outro lado, anuncia-se nova vaga de formação, com cursos de 50 a 300 horas. Era tempo de o Governo aceitar que só há emprego com crescimento económico e que o desemprego não é consequência de falta de formação. Tanto mais que vem aconselhando os mais qualificados a emigrarem e nada fez para cumprir a recomendação da troika no que toca ao ensino profissional. Basta de incoerência e de dinheiro deitado à rua ou investido no progresso de países terceiros.

5. Francisco José Viegas, o escritor e jornalista, faria e diria o que Francisco José Viegas, o secretário de Estado da Cultura, tem feito e dito? Diria ter chegado a “bom porto”, no negócio da venda da Tobis, quando, como candidamente confessou, apenas sabe que a empresa compradora é de “capitais sobretudo angolanos”? O Estado português já vende sem saber a quem? Se, por mera hipótese, um qualquer cartel da droga, a coberto de nome germânico, oferecer bom dinheiro pela TAP, o Estado vende, limitando-se a contar as notas?

6. Os sacrifícios colossais impostos aos portugueses que menos podem reclamam tolerância zero quanto à legitimidade moral das decisões políticas. Infelizmente, essas decisões são cada vez mais opacas e iníquas. O parlamento acaba de inviabilizar uma nova comissão de inquérito ao polvo BPN. Compreendemos porquê. Porque, com raras excepções, assume-se sempre como correia de transmissão da maioria que governa. Porque, neste caso, Passos tende para Sócrates e Gaspar converge com Teixeira dos Santos. Como é possível que uma fraude tão grande só conheça um rosto indiciado, que não condenado? Como é possível que, volvidos 33 meses, não seja pública a trama urdida e não sejam conhecidos os nomes dos que a conceberam, que serão muitos mais que o solitário Oliveira e Costa? À opacidade das condições em que o BPN foi resgatado junta-se agora a falta de transparência das condições em que foi vendido por tuta e meia. Passos como Sócrates, Gaspar como Teixeira dos Santos, actuam como se fossem donos do dinheiro que confiscaram aos contribuintes e acham que não têm que prestar contas públicas sobre o BPN. Por que razão não foi nacionalizada a Sociedade Lusa de Negócios e os seus activos? Qual é, afinal, a quantia total injectada no BPN? Qual era, é, o valor do património imobiliário do BPN?

7. Miguel Relvas decidiu imortalizar o programa de Governo numa edição de luxo para governantes. Foram 100 exemplares a 120 euros cada. No mesmo dia em que a decisão política, imoral, era conhecida, Miguel Relvas exortava na televisão, pedagogicamente, as autarquias a acabarem com as obras de fachada. Aparentemente sem se dar conta que há uma diferença entre um ministro de Estado e um grilo falante.

in Público, 29/02/2012

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

O Plano de Matateu



A Quinta do Soslaio mais parecia um testemunho de estafeta, tal era o seu afã em andar de mão em mão. Depois da D. Gertrudes e da menina Patareca — única herdeira de D. Caramela, que, por ser viúva, velha e perra como uma cancela de lameiro, endossara imediatamente a herança da irmã à sua filha coquete e oca de nascença —, a herdade tocou em sorte a um mancebo da Capital, o Matateu, parente muito afastado desta linhagem de fazendeiros. Era afastado, mas era parente, e por isso recebeu e honrou o testemunho. Nem Rossios, nem Chiados nem Pombais lhe haviam conspurcado o que de mais íntimo tinha nos genes: a vocação para criar e gerir galinheiros. Logo que pôde, o moço apresentou-se na herdade.
Inteligente e espigadote como qualquer alfacinha de gema, o jovem optou por não entrar de chancas na quinta, sobretudo na capoeira, onde, segundo lhe constara, as coisas não eram propriamente canja de galinha, embora também não constasse que se cantava de galo. Ainda assim, à cautela, entrou maneirinho, para poder tirar as medidas ao tesouro. E assim foi. Nos primeiros dias, o marialva só andou por ali, sempre de lenço perfumado a entupir-lhe a narigana corvina, a menar, a topar, a catar, a contar, a calcular, a congeminar, a estratagemar… Finalmente, iria poder tirar partido de tantos anos de experiência nos Restauradores a contar os carros que passavam! Enquanto isso, a galinhada foi relaxando, baixando a guarda, depenicando no chão com bico de precisão microscópica (tal era a fartura), pondo ovos escanzelados (com casca ou sem ela), vivendo na pior das imundices, na maior das desordens, tudo ao molho…  
— Estou feito! — exclamou ele um dia, ao morrer da tarde, afastando, com um safanão inteligente, os papéis quadriculados, esquartejados de sarrabiscos. — As galinhas estão completamente alienadas, já estão por tudo, já nem sabem a diferença entre pôr e defecar! Eu não tenho tosto, e a quinta está pior do que as calças coçadas de um almocreve! Por Pitágoras, como me safo disto?!
E lá voltou o rapaz da cidade aos mais recônditos becos da meditação metódica. Ser exigente e produzir ovadas de qualidade não era possível, pois nem sequer tinha cheta para limpezas, quanto mais para milho e rações! Estava fora de questão! O que havia de fazer? No imediato, por muito que lhe custasse, os ovos teriam de ser todos de tamanho S, mas sempre lhes poderia dar uma apresentação mais catita, talvez com um selo alaranjado de qualidade. Afinal, o tamanho não era o mais importante! Bem, no tocante aos galináceos, sempre poderia dar ainda mais expressão ao lema da sua dinastia — mais com menos — tão bem encarnado por D. Gertrudes e menina Patareca: juntar todas as pitas e seus pitos na ala direita do galinheiro, em vários andares… Depois, podia alugar a parte sobrante e aplicar os rendimentos em… em… estudos, inquéritos, estatística cosmética, manicura, pedicuro... Sim, sim!
Bêbedo de euforia, o Matateu deu volta à quinta a pular de contente, batendo com os calcanhares nas nádegas das calças de ganga americana. Eureka! Encomendara uma saída à inteligência, e recebera dela, sem cobrança nem fiança, em correio azul, registado e com aviso de receção, tudo quanto desejara, e com juros: iria vender a quinta, em leilão, nem que fosse a chineses. Com boas estatísticas, com boas fotos, com umas quantas poses, um pouco de Photoshop aqui, uma musiquita ali, como pechincha de pegar ou largar… alguém haveria de ficar de olhos em bico e pegar-lhe!
Dias depois, já o Sol se deitava nos peitos da colina, espalhando sombras e penumbras por todo o lado, chegou à Quinta do Soslaio um homem de gabardina cinzenta e óculos escuros. Vinha às arrecuas, para garantir total ausência de subjetividade e a exigida imparcialidade da avaliação que lhe fora encomendada por um amigo de um conhecido de um compadre do primo do Matateu. Encostou-se à janela do galinheiro e, através da rede, sem olhar a pita Capataza, disse-lhe:
— Venho fazer um inquérito de qualidade, produtividade, limpeza, bem-estar, realização galinhal… Enfim, estou aqui para saber tudo, tudo, tudo e tudo, ouviu?
— Cóoooooo! — anuiu a ave de chão.
— Então é assim: se as senhoras pitas acham que aqui está tudo nos conformes (ovos, ninho, palha, limpeza e tal e tal…) diga-lhes que se juntem no comedouro, que acaba de ser atestado com milho pipoqueiro; as galinhas que acham que as coisas só estão assim-assim, ou seja, nem bem nem mal, antes pelo contrário, que se juntem todas no cagaçal, como puderem; as que acham que isto por aqui vai de mal a pior, então que se amouxem junto à porta do matadouro. Entendeu?
— Cóoooooo! — respondeu a Capataza, olhando fixamente as costas do visitante.
 Nos instantes seguintes, foram ouvidos vários cacarejos da Capataza, seguidos de um curtíssimo silêncio sepulcral, que pariu o mais confuso, o mais aflito e o mais seco dos ruídos. O galinheiro parecia tomado por um ciclone, que pariu uma trovoada, que pariu uma intensa granizada. Eram as galinhas a bicar freneticamente os comedouros de pinho. 

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Ramuno Marato




And the Oscar goes to… 


Pela primeira vez na história do cinema, um ator português foi nomeado para os Óscares. O feliz contemplado  foi este giraço versátil e multifacetado, na categoria de melhor ator principário. 

O Dardomeu já está a torcer!

Oxigenemos as Escolas


Em muitas escolas, os diretores, envergando confortável o fato de caciques de um poder determinado a reduzir a Escola Pública a um serviço mínimo instrutivo, têm sido os garantes de todos os desmandos governamentais. No seu íntimo, já não se veem como professores.

Usando os poderes que a Lei lhes confere — sobretudo a varinha de condão chamada Avaliação Docente —, mas também aqueles que o medo instalado vai copiosamente outorgando, muitos diretores têm transformado “as suas escolas” em microcosmos de medo, de censura, de falta de liberdade, enfim, estufas de “totalitarismo democrático”. Paralelamente, essas escolas vão consolidando uma natureza bífida: inóspitas e castradoras na realidade quotidiana; integradoras, motivadoras, promotoras de sucesso e de realização pessoal e profissional em tudo o que é papel (pautas, relatórios, projetos, estatísticas, avaliações diversas…). Enfim, a hipocrisia tem-se instalado como paradigma curricular. É uma escola barata que dá para aviar as necessidades mais imediatas e mais básicas do sistema.

Não me admira nada que o Governo esteja a tentar, por todos os meios, evitar que os seus caciques sejam removidos deste quadro; não me admira nada que o Governo que tem os propósitos acima descritos queira reforçar ainda mais o poder das autarquias no Conselho Geral, dando a este órgão o poder de avaliar (controlar) o Diretor; não me admira nada que o Governo não queira ver gente “independente” e identificada com uma certa verticalidade docente à frente das escolas; o Governo sabe que é aí que está a pedra de toque.

É preciso que os sindicatos se mantenham intransigentes nesta matéria. Nas escolas onde há direções que terminam mandatos antes do final de 2012/2013, é fundamental que o processo de candidaturas prossiga na sua normalidade. É urgente, nessas escolas, que o corpo docente se una, sem medos nem tabus, e crie sinergias em torno de pessoas capazes de abrir janelas e deixar entrar oxigénio.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Apeteceu-me!


Ele há coincidências que um homem… No dia 3 de fevereiro, escrevi no Danação uma “Carta Aberta aos Meus Colegas”; quatro dias depois, publiquei uma crónica intitulada “Nababos”, sobre o mesmo tema, mas em sentido frontalmente denotativo, apontando aos professores o caminho da substituição dos diretores prepotentes por outros mais democratas, mais sintonizados com as preocupações e aspirações dos professores; três dias depois, o Governo, sem nada saber do que este célebre anónimo dissera, decidiu tirar o revólver do coldre e… vai daí… dar um tiro em cheio na minha ideia escarafunchosa. É preciso ter azar!
Na proposta de “Alteração ao Regime de Autonomia, Administração e Gestão dos Estabelecimentos Públicos da Educação Pré-escolar e dos Ensinos Básico e Secundário”, mais concretamente no sexto artigo do quinto capítulo (página 14), o Ministério da Educação diz o seguinte:
“1 – Até final do ano escolar de 2012/2013, sempre que numa escola não agrupada se verifique a cessação do mandato do diretor, o serviço territorialmente competente do Ministério da Educação e Ciência nomeia uma comissão administrativa provisória, que assegurará transitoriamente as funções de gestão e administração da escola até que seja proferida decisão sobre a sua agregação.
Traduzindo para bom português, o que o nosso ministro quer dizer é basicamente o seguinte:
Nós andamos a congeminar certas coisas que não vos interessam e, enquanto não tivermos isto no ponto, os meninos não podem bulir no que está quieto e bem acomodado!
Como, felizmente, a vida é feita de venturosas coincidências, acontece que faz por estes dias quatro anos que eu decidi cavar esta trincheira. Assim sendo, resolvi voltar, apesar de todos os apesares. Nem eu mesmo compreendi realmente a razão por que o faço. Apeteceu-me! Apeteceu-me o lugar, apeteceu-me o estilo, apeteceu-me a armadura, apeteceram-me as recordações, apeteceu-me o odor do Dardomeu… Não acham que o Dardomeu tem um odor especial?!
Pois… apeteceu-me tudo isto!